Fabiana Cardoso Tardelli*
*Médica homeopata
pelo IHFL
Monteiro Lobato foi um intelectual militante, sempre buscando, através
de inúmeros livros e artigos nos principais jornais da época,
manter seus leitores claramente conscientes dos problemas do nosso país.
Travava uma luta quixotesca pelos seus ideais de igualdade social, liberdade
de expressão e justiça, desejando-os presentes em um novo
Brasil, desenvolvido e saneado da corrupção e burocracia
reinantes. Buscando soluções para transformar a realidade
política, econômica e cultural do país, segundo sua
visão pragmática, conseguiu influenciar milhões de
brasileiros.
Qual a extensão da influência do conjunto de sua obra na formação
de opiniões e atitudes?
Analisando esta questão, diversos autores que estudaram o processo
através do qual os indivíduos de uma geração
adquirem os elementos de conhecimento e de comportamento das gerações
anteriores, concluíram que o processo inicia-se na infância
e inclui, principalmente as influências do meio familiar, do grupo
e de agentes externos, tais como a mídia (impressa e eletrônica)
e outros. José Roberto Whitaker Penteado entrevistou um grupo de
adultos, leitores de Lobato durante a infância para determinar essa
influência. Pesquisando assuntos pré-determinados, como religião,
família, governo e outros, concluiu que não há uma
interpretação unívoca das fábulas lobatianas,
mas, mesmo assim os leitores “observam valores que opõem a cooperação
ao egocentrismo, a aceitação das diferenças à
intolerância, a religiosidade ao sectarismo, o progresso ao apego
rígido ao passado. Sobretudo, há o reconhecimento de que
a leitura de Lobato contribuiu para o desenvolvimento da curiosidade, do
espírito crítico e da negação da autoridade
repressora”(1).
Se, mesmo no universo de suas obras infantis, foi possível detectar
influências posteriores na formação dos conceitos,
idéias e visão de mundo dos adultos, as suas obras para o
público adulto, certamente conquistaram a mesma importância
transformadora.
Em relação à medicina homeopática, ou qualquer
outro valor ou idéia por nós adotados, e que não represente
a escolha respaldada pela maioria da sociedade, sempre haverá, nessa
atitude de coragem e espírito crítico a identificação
com o ideal lobatiano que ele próprio extraiu de Nietzsche: “Queres
seguir-me? Segue-te!”(2).
Quantos não teriam experimentado a nova arte de curar encorajados
pelos seus depoimentos? O próprio Monteiro Lobato, em correspondência
a Paulo Dantas, especula sobre o êxito de sua faceta de “propagandista”,
concluindo que sua eficácia nessa área, seria resultado da
força emanada das suas absolutas convicções pessoais.
Mesmo para os homeopatas convictos, o relato de seus primeiros
contatos com a homeopatia e o conhecimento mais detalhado sobre a vida
e obra de tão genial e assustadoramente atual figura humana, somente
intensifica o orgulho de possuir em nossas fileiras, tão enaltecedora
companhia.
OBJETIVO
O trabalho pretende demonstrar o papel preponderante de Monteiro Lobato
na história do país, através de seu trabalho como
escritor, advogado, empresário, editor, jornalista, crítico
de artes, adido comercial e fazendeiro, tendo sido pioneiro e fiel
aos seus princípios em todas essas áreas.
Seu primeiro contato e as referências à homeopatia presentes
em sua obra serão descritos no trabalho.
Um breve resumo da história da homeopatia no Brasil foi incluído
para que fosse possível compreendê-la melhor frente ao contexto
histórico e também situá-la face
à vida de Lobato.
MATERIAL E MÉTODO
Para a realização do objetivo do trabalho foram pesquisadas
biografias sobre o autor, assim como obras sobre a história do Brasil
e do mundo.Também foram consultadas obras sobre história
da homeopatia .
As cartas publicadas de Monteiro Lobato foram analisadas à procura
de referências à homeopatia (nas obras: A Barca de Gleyre
volumes I e II , Cartas Escolhidas volumes I e II).
A pesquisadora e amiga do escritor paulista, Hilda Villela Mertz, relatou
e confirmou dados sobre a sua biografia e obra.
MONTEIRO LOBATO: O CONTEXTO HISTÓRICO DE SUA VIDA
Monteiro Lobato nasceu em 1882 na cidade de Taubaté, pacata cidade
do interior paulista que vivia sob a influência da economia cafeeira.
Neto do Visconde de Tremembé, membro de destaque da oligarquia rural,
Lobato, durante sua vida, presenciaria profundas mudanças na história
de seu país.
Quando começou o século XX, o mundo ocidental atravessava
uma época de paz entre as nações da Europa. O capitalismo
monopolista vinha, desde a segunda metade do século XIX, substituindo
o livre comércio e fez surgir o imperialismo, em resposta à
necessidade de obter matérias-primas baratas de regiões pobres.
A maior potência dessa fase neocolonialista passou a ser da Inglaterra.
A monarquia brasileira, na segunda metade do século XIX, era uma
exceção, dentro do contexto político das Américas
republicanas.
“Instituída em 1822 como modelo político capaz de manter
intocável o latifúndio escravista e preservar os privilégios
da elite rural, a monarquia brasileira, a partir de 1870 tornava público
seu anacronismo e incapacidade de acompanhar a evolução que
se processava no país. O governo imperial, instituído nos
anos 20, mostrava-se obsoleto e incapaz de atender as novas aspirações
de uma sociedade que se transformava e modernizava” (3).
O Brasil conquistara a independência política, mas esta não
se estendeu ao âmbito econômico, no qual nos submetíamos
aos interesse da Inglaterra, que reservara ao nosso país a função
de agroexportador, assim como de consumidor de seus produtos industrializados.
A sociedade brasileira no século XIX , acompanhando a estrutura
econômica que se mantivera inalterada, permanecia aristocrática,
agrária, escravista, pouco urbanizada e regida pelas mesmas tradições
do Brasil-colônia.
Apenas na segunda metade do séc. XIX, o Brasil conseguiu se libertar
da crise econômica herdada do primeiro Reinado, possibilitando um
processo de modernização e urbanização. Os
meios de transportes e comunicações desenvolveram-se e ampliou-se
o sistema de crédito, através dos bancos e companhias de
investimentos.
O grande responsável por essas modificações foi o
café, cujas exportações aumentaram de pouco mais de
três milhões de sacas na terceira década do século
XIX, para aproximadamente cinqüenta e um milhões de sacas no
final do mesmo século. O consumo de café firmava-se na Europa
e nos Estados Unidos.
Paralelamente ao apogeu do café, ocorria o declínio
das culturas de cana-de-açúcar, algodão e tabaco.
Portanto, o eixo econômico do Brasil deslocava-se das regiões
norte e nordeste para as novas regiões economicamente
dominantes do centro-sul. “A nova elite cafeeira do oeste paulista, ao
desenvolver uma mentalidade empresarial moderna, contrapunha-se à
tradicional elite agrária açucareira do nordeste e à
cafeeira fluminense e valeparaibana apegadas ao conservadorismo” (4).
Entretanto, apesar de ser detentora do poder econômico, a aristocracia
cafeeira paulista não tinha representação política
condizente com a sua situação. O governo imperial também,
não destinava ao governo de São Paulo grande apoio financeiro.
Devido a essa situação, a nova aristocracia paulista criticava
o poder centralizado do império e apoiava as manifestações
liberais e modernizantes, tanto do ponto de vista social quanto político.
As novas propostas eram lideradas por uma jovem ala política formada
pela Academia de Direito do Largo São Francisco. “Para os aristocratas
de São Paulo o governo central tinha de atender as necessidades
da lavoura cafeeira em expansão, incrementar a imigração,
acabar com a escravidão e financiar alguns empreendimentos paulistas,
como a construção de ferrovias, etc.”(5) A escravidão
retardava a expansão cafeeira, limitando a mão de obra disponível.
As camadas médias urbanas compostas por profissionais liberais,
artesãos, comerciantes, intelectuais, militares, embora não
possuíssem reivindicações próprias, engajavam-se
fervorosamente nas campanhas abolicionista e republicana.
Desde 1810 a Inglaterra pressionava fortemente o Brasil a extinguir a escravatura,
porém o Império mantinha-se dúbio, aprovava as leis
mas não as aplicava com rigor. Em protesto, os ingleses decretaram,
em 1845, o tratado de Bill Aberdeen, que autorizava a perseguição
e apreensão de navios negreiros a nível mundial e seu ulterior
julgamento em cortes inglesas.A
abolição da escravatura
acarretaria grande liberação de capital dos fazendeiros,
que poderia ser empregado na compra de manufaturados ingleses. O trabalho
assalariado também ampliaria o mercado consumidor, assim como
promoveria a equiparação dos custos de produção
dos produtos brasileiros aos dos ingleses.
O governo brasileiro foi obrigado a ceder, através da lei Eusébio
de Queiroz, proibindo definitivamente o tráfego negreiro no país
a partir de sua promulgação, em 1850. As oligarquias nordestinas
e as do Vale do Paraíba e Baixada Fluminense julgaram-se prejudicadas
por essa medida.
Depois de 1850, a campanha abolicionista sofreu a adesão de outros
setores da sociedade: imprensa, parlamentares, artistas e intelectuais.
A Guerra do Paraguai (1864-1870) foi, em grande parte, estimulada pela
Inglaterra, a qual temia que o exacerbado nacionalismo e a pretensão
imperialista do Paraguai, comandado por Solano Lopez, fossem imitados pelo
Brasil e Argentina. Mesmo tendo saído vitorioso, o Brasil sofreu
grandes revezes: morreram milhares de brasileiros e a Guerra nos tornou
mais endividados e dependentes dos ingleses.
O exército brasileiro, fortalecido com a vitória, não
mais aceitaria um papel secundário no cenário político
nacional e não mais admitiria o império escravista. Adotaram
as idéias positivistas de Augusto Comte, pregando serem somente
a ordem e a ciência capazes de propiciar o desenvolvimento do país.
E apenas o exército estaria apto a atender esses pré-requisitos
e alavancar o progresso do país.
Com a extinção do tráfico negreiro e, posteriormente,
da escravidão (1888), associados à promulgação
da Tarifa Alves Branco (1844), que sobretaxava os produtos importados (tarifa
maior para os produtos com similares nacionais), a indústria brasileira
conheceu seu primeiro surto de desenvolvimento.
Em 1870, ocorreria um novo surto industrial, só que, desta vez,
proporcionado pelo excedente de capital do setor cafeeiro e pelo desenvolvimento
do mercado consumidor interno, ampliado graças à imigração.
Entre os empresários da segunda metade do século XIX, destacou-se
a figura do Barão de Mauá, responsável por grandes
empreendimentos como: Estabelecimento de Fundição e Companhia
Estaleira da Ponta da Areia (Rio de Janeiro, 1847); Companhia Fluminense
de Transportes (1852); Companhia de Iluminação a Gás
do Rio de Janeiro (1854); Estradas de Ferro; a primeira linha de bondes
do Rio de Janeiro e redes bancárias com filiais na Inglaterra, EUA,
França, Argentina e Uruguai.
Porém, a partir de 1860 a era Mauá inicia seu declínio,
provocado pela queda das tarifas alfandegárias (por pressão
externa) e vitimado por sabotagens (destruição de moldes
e modelos de construção naval) e incêndios criminosos.
O governo imperial também não o apoiava por suas posições
liberais, abolicionistas e contrárias à Guerra do Paraguai.
Os grupos ligados à incipiente indústria brasileira redigiram
um manifesto, afirmando que o país só se constituiria
em nação estável e justa, quando se libertasse dos
moldes agroexportadores e desenvolvesse a indústria.
A submissão total do clero católico ao imperador, através
dos mecanismos do padroado (intervenção do governo na nomeação
para cargos importantes da igreja) e do beneplácito (impunha a necessidade
do consentimento real para vigorarem as ordens do Vaticano) determinou
mais uma força contrária ao Império.
Após o término da Guerra contra o Paraguai (1864-1870), o
movimento republicano se fortalece e lança o manifesto republicano
assinado por Quintino Bocaiúva, Saldanha Marinho, Rangel Pestana
e outros, protestando contra a escravidão, a ligação
do Estado com o clero, o poder moderador, o senado vitalício e as
desigualdades sócio-econômicas. É criado, três
anos após tal manifesto, o Partido Republicano Paulista, apoiado
pela elite cafeeira paulista e contando com adeptos em Minas Gerais, Rio
de Janeiro e Rio Grande do Sul.
Verifica-se, então, que a república era um desejo coletivo,
capaz de unir, sob o mesmo ideal as classes médias com seus segmentos
mais importantes – o clero e o exército – ,aristocratas anti-escravistas
e conhecidos escravocratas, descontentes com a abolição efetuada
sem o pagamento de indenizações.
Portanto, a crise do império e a conseqüente proclamação
da República foram decorrências diretas das transformações
sócio-econômicas ocorridas na segunda metade do século
XIX. Assim, sem lutas e sem a participação popular, foi proclamada
a República, em 15 de novembro de 1889.
Contudo, modificou-se a bandeira nacional, promulgou-se uma nova constituição,
separou-se a Igreja do Estado, porém as desigualdades sócio-econômicas
foram mantidas.
Foi nesse contexto histórico que Monteiro Lobato aprendeu
as primeiras letras com a mãe, Olímpia Augusta Monteiro
Lobato, filha legitimada do Visconde de Tremembé com Anacleta
do Amor Divino, humilde professora primária.
A família do escritor pertencia à longa linhagem de latifundiários,
porém já vivia o início da decadência econômica
do Vale do Paraíba. Seu avô, contudo, mantinha relações
pessoais importantes, tendo hospedado o próprio imperador em sua
fazenda, o que proporcionou ao menino Lobato, seu primeiro contato
com o poder.
Prossegue seus estudos com um professor particular e, posteriormente,
freqüenta vários colégios de Taubaté. Entre
estes, incluiu-se o Colégio Paulista, de orientação
positivista, ideologia esta que, como citado anteriormente, encontrou muitos
adeptos entre os jovens oficiais militares e adeptos do ideal republicano.
Durante o período inicial da República, o positivismo e o
liberalismo representavam as duas grandes vertentes do pensamento político
vigente no país. Tal período também foi marcado por
grande movimentação de idéias, em geral, importadas
da Europa e muitas vezes mal compreendidas, absorvidas de modo parcial
e seletivo, gerando grande confusão ideológica.
A teoria da evolução das espécies descrita por Darwin
revolucionava o pensamento mundial contemporâneo, influenciando,
inclusive, as elites brasileiras.
A posse de uma bengala com as iniciais paternas J. B. M. L. gravadas, faz
com que Lobato altere seu nome para José Bento Monteiro Lobato,
o qual manteria durante toda a sua vida.
Aos treze anos (1895), muda-se para São Paulo, ficando interno no
Instituto de Ciências e Letras, onde, por ironia do destino, é
reprovado no exame de português.
Na esfera política, é proclamada a República, em 15
de novembro de 1889, pelo Marechal Deodoro da Fonseca, o qual institui
e preside o governo provisório.
Atingido o objetivo comum que os unira - militares e a aristocracia cafeeira
- no mesmo ideal republicano, surgem as divergências sobre o modelo
de regime a ser adotado.
Os militares, imbuídos da concepção positivista de
ordem e progresso, desejavam um governo ditatorial centralizado, assim
como reformas políticas e econômicas que favorecessem a classe
média, à qual pertencia grande contigente de militares.
À oligarquia cafeeira interessava
a República Federativa, que lhe proporcionaria maior controle dos
governos estaduais, garantindo a manutenção da política
favorável à maior rentabilidade do café.
Rui Barbosa, o primeiro ministro da fazenda do período republicano,
aumentou a emissão de papel moeda e facilitou o crédito,
visando incrementar a industrialização do país e,
conseqüentemente, seu desenvolvimento. A enorme quantidade de dinheiro
emitida sem equivalência com a produção real da economia
(sem lastro ouro) gerou grave crise inflacionária e especulativa
(que ficou conhecida como Encilhamento).
A aristocracia cafeeira, contrária a qualquer política que
não priorizasse a lavoura, retirou seu apoio, provocando a
renúncia do ministro da fazenda, em janeiro de 1891.
A primeira constituição republicana determinava a adoção
da forma federativa, do regime presidencialista e garantia o voto aberto
aos homens maiores de 21 anos, excetuando-se os analfabetos, mendigos,
soldados e religiosos. No dia seguinte à sua promulgação,
o Marechal Deodoro da Fonseca é eleito primeiro Presidente da República,
com a ameaça de usar a força das armas caso perdesse a disputa.
A primeira revolta da armada (1891), chefiada por Custódio de Melo,
ameaçou bombardear o Rio de Janeiro, após assumir o controle
de encouraçados e torpedeiros. O autoritarismo do Marechal Deodoro,
assim como a descoberta de negócios escusos, realizados por integrantes
do seu governo, e o fechamento do Congresso Nacional provocaram a revolta
que obrigou o presidente a renunciar. No mesmo dia, assume a presidência
da República Floriano Peixoto, cujo governo, respaldado pela oligarquia
cafeeira, pelas camadas médias urbanas às quais pertencia
e pela ala militar florianista, consolidou o novo regime através
de um executivo forte e um autoritarismo por vezes superior ao de Deodoro.
A vitória de Prudente de Moraes nas eleições de 1894
representou o término da República da Espada e o início
da Repüblica Oligárquica, onde a elite cafeeira, já
detentora do poder econômico, assume também o poder
político efetivo na esfera federal.
O coronelismo, sistema de dominação política e de
controle das eleições e dos votos da massa (voto de cabresto)
assegurariam a manutenção da estrutura econômica.
Prudente de Moraes, o primeiro presidente das oligarquias, enfrentou a
crise da superprodução do café, cujo preço
e volume de vendas despencaram nos mercados internacionais. A inflação
crescia e o poder aquisitivo do povo era sensivelmente reduzido. No seu
mandato, a miséria nordestina, agravada pela grande seca iniciada
em 1877, impossibilitou os “coronéis” nordestinos de manter, mesmo
em regime de semi-escravidão, a massa de sertanejos que vivia nos
seus latifúndios improdutivos. Tal situação provocou
o êxodo para as lavouras cafeeiras paulistas ou para a Amazônia,
onde ocorria o ciclo da borracha. Os sertanejos que não imigraram,
ou formavam bandos de cangaceiros nos quais davam vazão à
sua revolta, ou se agrupavam em torno de um líder religioso.
“Foi neste contexto que surgiu (...) Antônio Alves Conselheiro, o
maior líder sertanejo do Brasil e comandante do maior e mais importante
movimento camponês de luta pela posse da terra e de resistência
à opressão dos latifundiários da história brasileira:
a Guerra de Canudos (1896-1897)”.(6)
A cidade “santa” de Belo Monte (1893), comunidade igualitária, refúgio
dos famintos, tinha em Antônio Conselheiro seu líder político
e religioso. A reação do governo, dos fazendeiros e mesmo
da Igreja não se fez esperar...
Após resistir às investidas do exército brasileiro
em três ocasiões, Canudos, que chegou a reunir 30.000 habitantes,
é vencida pela quarta expedição militar, composta
por 5.000 soldados, em outubro de 1897.
No ano seguinte, 1898, Monteiro Lobato fica órfão e, desistindo
do seu sonho inicial de ser pintor, acata a determinação
de seu avô e tutor, iniciando o curso de Direito na respeitada Faculdade
de Direito do Largo São Francisco.
No país dos bacharéis, como era chamado o Brasil desse período,
o diploma de médico, engenheiro ou advogado era a via de ascensão
social mais segura, permitindo a admissão nas esferas institucionais
da República, mesmo se o certificado ficasse relegado a mero adorno.
Como escreveria Lobato, no artigo intitulado “A doutorice”, os brasileiros
afastavam-se das profissões manuais, da indústria e do comércio,
cedendo espaço aos imigrantes que já eram donos de 70% das
indústrias paulistas.
Culturalmente, nesses primeiros anos da República, continuávamos
a eleger Paris como modelo ideal a ser seguido no comportamento, na moda
e nas artes. O Rio de Janeiro, apesar de ser o centro político e
cultural do país, mantinha-se sem rede de esgotos e com fornecimento
de água bastante precário. O lixo invadia-lhe as ruas, becos
e cortiços, sendo que as epidemias eram parte dessa triste realidade:
cólera, tifo, tuberculose e febre amarela.
A cidade de São Paulo começava também a deixar de
ser uma pequena cidade do interior brasileiro, que fora durante três
séculos e meio, onde uma carta prescindia do endereço do
destinatário para ser recebida (mesmo próximo à virada
do século). A cidade cresceria e se urbanizaria nos primeiros decênios
do século XX. Em 1900, havia na cidade 240.000 habitantes, incluindo
um grande contigente de imigrantes, os quais, juntamente com os ricos fazendeiros
que lá se instalaram, a transformaram na segunda cidade mais populosa
do país.
Até 1907, o Rio de Janeiro liderou a produção manufatureira,
sendo superado em 1920 pela cidade paulista, que detinha 31,5% da produção
do país. O futebol, introduzido no país por Charles Müller,
em 1894, ganha seu primeiro grande estádio em 1919 (para 18.000
torcedores), tornando-se o grande lazer das massas.
As elites cariocas mantinham-se entretidas em saraus à francesa,
porém o samba já estava surgindo nos morros.
Já nesse século,
iniciando o processo de autoconhecimento e auto-expressão, são
publicados: “Os Sertões” de Euclides da Cunha, contando a saga de
Canudos, e “Canaã” de Graça Aranha, descrevendo os primeiros
contatos de imigrantes alemães com o sertão do Espírito
Santo.
Santos Dumont, em 1906, voou pela primeira vez, na cidade de Paris, em
um aparelho mais pesado que o ar.
Esboçam-se as primeiras organizações em defesa do
proletariado. O socialismo funda, em 1902, o Partido Socialista do Brasil,
o qual, apesar de sua duração efêmera, exerceu importante
papel no esclarecimento das massas. Como movimento ideológico é
suplantado, entretanto, pelo anarquismo trazido pelos imigrantes espanhóis
e italianos que defendia a substituição da autoridade do
Estado, por formas de cooperação entre os indivíduos.
A burguesia industrial incipiente desejava o saneamento moral da República
e o buscava através de ligas e partidos da mocidade. A Liga de Defesa
Nacional, fundada pelo poeta positivista Olavo Bilac, defendia a ordem,
a disciplina, a dignidade patriótica o serviço militar
obrigatório. A igreja católica tentava, através dos
colégios para leigos, readquirir influência sobre as mentes
das classes dominantes, moldando-as durante o processo educacional.
Freqüentando a Faculdade de Direito, o já inconformado Lobato
criticava o ambiente universitário por não mais ser
tão politicamente engajado, como na geração anterior,
quando Rui Barbosa, Castro Alves, José Bonifácio e outros
a elevaram a reduto da intelectualidade vanguardista, influindo decisivamente
para a concretização dos ideais republicanos e absolutistas.
Iniciava, nesse momento, sua participação nas decisões
político-sociais do país, um ensaio para as decisivas participações
futuras. Escreve assiduamente para jornais estudantis, debatendo os mesmos
assuntos exaustivamente comentados nas mesas do café Guarani (reduto
da boemia paulistana): literatura, artes plásticas, teatro, música
e política. Em concurso literário realizado pelo centro acadêmico
em 1904, recebe o primeiro lugar com o conto “Gente aborrecida” (“Gens
ennuyeux”, como constava no original).
Do corpo docente da Faculdade, fartamente retratado nas caricaturas de
Lobato, destacam-se, pela admiração que conquistaram, Pedro
Lessa e Almeida Nogueira.
Almeida Nogueira, autêntico representante do patriciado agrícola,
professor de economia política e finanças, era adepto da
não-intervenção do Estado na economia (liberalismo)
e, provavelmente estimulou em Lobato o interesse pelos empreendimentos
comerciais. Já Pedro Lessa, jurista e magistrado, “defensor da liberdade
de pensamento e expressão como indispensável à dignidade
humana (...)” (7), representou uma influência fecunda e marcante
na formação intelectual de Lobato.. Segundo Lessa “o Homem
só se deve render a argumentos e convicções próprias,
nunca a injunções alheias”(8). Procurava também incutir
ideais de justiça e civismo nos seus alunos.
Lobato, em carta de 1903 a Rangel demonstra ter compreendido a lição:
“Você me pede um conselho e atrevidamente eu dou o grande conselho:
seja você mesmo, porque ou somos nós mesmos ou não
somos coisa nenhuma, e para ser si mesmo é preciso um trabalho de
mouro e uma vigilância incessante na defesa, porque tudo conspira
para que sejamos meros números, carneiros dos vários rebanhos
(...). Há no mundo o ódio à exceção
e ser si mesmo é a exceção”(9). Como ensinara-lhe
Nietzsche, principal ponto de referência do universo lobatiano: “Queres
seguir-me, segue-te”(10)
Segundo José Roberto W. Penteado
“os mestres da Faculdade de Direito compartilhavam de uma visão
progressista do mundo, positivista e cientificista spenceriana”(11).
Monteiro Lobato intitulava-se socialista ao entrar na faculdade, tendo,
inclusive, discursado na defesa dos ideais de justiça, igualdade
social e liberdade; logo, porém, irá interessar-se
pelo anarquismo originário dos imigrantes italianos. Participa moderadamente
da política estudantil e dedica à faculdade apenas
as “quireras” de tempo necessárias à sua aprovação.
Para espantar o tédio, muitos estudantes formavam grupos à
parte, onde as afinidades mentais e ideais semelhantes cimentavam
sólidas amizades. O grupo de Lobato se denominava “Cenáculo”
.
Aos colegas do Cenáculo, aos livros e às discussões
literárias rendia-se totalmente, incendiado por sua fervorosa verve
de escritor. Continuava se deliciando, como quando criança na biblioteca
do avô, em intermináveis leituras: Daudet, Voltaire, Emile
Zola, Fichte, Eça de Queiroz, Spinoza, Spencer, Darwin, Machado
de Assis e especialmente Nietzsche. A “misteriosa afinidade mental”(12)
que unia os cenaculóides, nem todos egressos do Largo São
Francisco, faria eclodir uma amizade duradoura e profunda entre os seus
agregados. A afinidade consistia num vago socialismo somado a um imenso
amor à arte.
O cenáculo “ia reformar o
mundo, notificar as leis do universo. Uma arte nova ia surgir, uma ciência
e uma filosofia inéditas”(13). O próprio grupo assim caracterizava
seus integrantes: “o poeta chamava-se Ricardo Gonçalves, o
filósofo, Albino Camargo, o diletante, Cândido Negreiros,
a alma, Raul de Freitas, o talento, Godofredo Rangel, o jornalista, Tito
Lívio, o orador, Lino Moreira; agregaram-se posteriormente um espírita,
Júlio Costa, e um místico, João Antônio Nogueira”(14).
Apesar de não terem concretizado
a almejada utopia de reformar o mundo, quase todos os integrantes do grupo
conseguiram espaço para escrever, assiduamente, nos jornais da cidade
de São Paulo e do interior paulista. No Minarete, eram publicadas
colaborações tão ousadas que a devolução
motivada pela indignação dos leitores não era incomum.
As matérias denunciavam as mazelas do prefeito e também,
traziam inúmeros artigos jocosos que só os membros do grupo
entendiam (segundo Lobato, ao escrever, eles já suprimiam os trechos
que os leitores costumavam pular durante a leitura). O Cenáculo
será sempre recordado com nostalgia e reverência, na longa
correspondência que manterá com Godofredo Rangel, posteriormente,
publicada sob o título “A Barca de Gleyre”. Nestas são revelandos
cerca de quarenta anos de mútuas confidências, elogios e discussões
literárias.
Na política brasileira, Campos Salles (1898-1902) sucedia a Prudente
de Moraes, herdando um país endividado, pressionado pelos credores
estrangeiros e com sua fonte primordial de dividendos, o café, sofrendo
quedas vertiginosas na sua cotação. O novo presidente acreditava
na vocação agrária do nosso país.
Para compensar a redução no preço do café promove
a desvalorização da nossa moeda, socializando as perdas ou
seja, reduzindo os prejuízos dos latifundiários exportadores.
“Era extremamente preocupante a situação financeira do país.
A inflação galopante, a crise cafeeira e a queda vertiginosa
da moeda caracterizavam o estado de semifalência por que passara
a nação e impossibilitavam o pagamento dos juros ou a amortização
da divida externa”(15).
Negociando com os banqueiros ingleses, Campos Salles formou o “Funding
Loan”. Este acordo determinava a suspensão, por três anos,
do pagamento dos juros; obtenção de novos empréstimos
e dilatação do prazo para iniciar a amortização
da dívida, que deveria ser saldada em até sessenta e três
anos.
Para sanear as finanças foram adotadas medidas drásticas:
redução do crédito, aumento dos impostos e congelamento
dos salários, gerando recessão, desemprego e desaceleração
do processo de industrialização.
A popularidade do presidente despencava vertiginosamente e as greves se
multiplicavam, forçando o governo a criar a política dos
governadores. Esse acordo significava troca mútua de apoio e favores,
entre o governo federal e os governadores estaduais. Foi criada, pelos
mesmos motivos, a Comissão Verificadora de Poderes, que só
confirmava a eleição dos deputados vinculados às oligarquias
dominantes, garantindo, assim, a hegemonia política e a docilidade
do Congresso Nacional.
O domínio político exercido pelas oligarquias de São
Paulo e Minas Gerais a nível nacional, ficou conhecido como a política
do “Café com Leite”.
Rodrigues Alves é eleito em 1902 para governar um país recuperado
financeiramente pelo “Funding Loan”. Finalmente, o país pôde
retomar o seu desenvolvimento: saneamento básico, novos portos,
construção da estrada de ferro Madeira-Mamoré e melhoria
das antigas ferrovias, construção do Instituto de Manguinhos,
etc.
A urbanização do Rio de Janeiro e o combate às doenças
infecto-contagiosas foram seus atos mais louváveis. Porém,
para transformar o Rio de Janeiro em uma cidade saneada e remodelada, as
classes baixa e média-baixa foram desalojadas do centro, refugiando-se,
então, nos morros e na periferia.
O sanitarista Oswaldo Cruz, diretor da Saúde Pública (1903),
responsável pelo sucesso do saneamento, foi obrigado a impor a vacinação
contra varíola para controlá-la.
A população rebela-se contra os sacrifícios impostos
pelo saneamento e contra a obrigatoriedade da vacina. A revolta popular,
seguida de uma rebelião militar oportunística, causaram muitas
mortes na tentativa de derrubar o presidente. O episódio ficou conhecido
como a Revolta da Vacina.
Taubaté acolhe, em dezembro de 1904, o neto do Visconde de Tremembé,
seu mais novo bacharel em ciências jurídicas, com grandes
festejos regados a discursos e foguetes. A vida pacata do interior, onde
um homem só é considerado gentil e educado, segundo Lobato,
quando se confunde com todos os outros, provoca um misto de tédio
e irritação. Desagradam-no, sobretudo, as adulações
e a saudade dos amigos, obrigando-o a se refugiar nos livros e nas cartas
para Rangel. Poucos meses depois, porém, conhece sua futura esposa,
D. Maria Pureza e é indicado, através da influência
decisiva de seu avô, para o cargo de promotor público da comarca
de Areias. Assume o cargo em junho de 1907, porém a “matutez” dos
jurados e os poucos conhecimentos jurídicos dos demais bacharéis,
aprofundam a indiferença de Lobato em relação à
advocacia.
Casa-se com Purezinha em 28 de março de 1908.
Machado de Assis, Homero, Camilo Castelo Branco e uma assinatura do jornal
inglês “Weekly Times” salvam o escritor da anêmica vida
areense. Pretendendo melhorar as finanças, traduz artigos do “Weekly
Times” para o jornal paulista O Estado de São Paulo e colabora com
desenhos e matérias para diversos jornais.
Em 1909, envolve-se na campanha civilista, apoiando Rui Barbosa contra
o Marechal Hermes da Fonseca. O movimento defendia a moralização
político-eleitoral e o afastamento dos militares da política
nacional. O Marechal Hermes sai vitorioso graças à fraude
eleitoral, provando que os objetivos de Rui demorariam a ser concretizados.
A vitória de Marechal Hermes aboliu a política do “Café
com leite”, cuja continuidade exigia a eleição do candidato
paulista Davi Campista. O novo presidente tinha o apoio das oligarquias
mineira e gaúcha e a oposição das oligarquias paulista
e baiana. A instabilidade política agravou ainda mais nossa situação
financeira e um novo “Funding Loan” teve que ser negociado.
O Visconde de Tremembé falece em 27 de março de 1911, deixando
de herança para os netos a fazenda Buquira. Lobato muda-se para
a propriedade com a família: a esposa e os filhos Marta e Edgard.
O espírito crítico e empreendedor do escritor procura modernizar
a fazenda, porém esbarra na figura atrasada e indolente do caboclo.
Lobato espanta-se com o desrespeito que esses “piolhos” demostram para
com a natureza, da qual são totalmente dependentes. As queimadas
e a destruição da cobertura vegetal vão exaurindo
o solo, que não responderá mais com a mesma generosidade
ao capital e esforços nele investidos.
Critica o governo por não incentivar um uso mais racional e conseqüente
da terra, através de uma campanha nacional de esclarecimento. Engajando-se
na defesa de uma agricultura moderna, escreve para a seção
de cartas do jornal O Estado de São Paulo. O seu artigo é
publicado, com destaque, sob o título “Uma velha praga”, em novembro
de 1914, obtendo grande repercussão.
A crítica ao caboclo inconseqüente,
preguiçoso e ignorante se aprofunda, e Lobato personifica-o na figura
de Jeca Tatu. A sua visão do caboclo contraria totalmente a imagem
do “bom selvagem” que havia herdado dos índios heróicos de
José de Alencar.
Segundo Lobato, seria suficiente
apenas uma breve experiência como administrador de fazendas para
corrigir a imagem errônea. O sucesso obtido com “A Velha Praga” e
“Urupês” (título do conto onde nasce Jeca Tatu) abre-lhe as
portas de inúmeras redações e editoras.
O cenário mundial, porém,
está cada vez mais sombrio. A I Guerra Mundial é deflagrada
em 1914, enquanto Lobato travava sua guerra particular contra a ignorância
dos caboclos e a omissão governamental. O neo-imperialismo das nações
européias, que pretendiam repartir o mundo, cada qual em seu próprio
proveito, conduziu ao conflito mundial. A vitória coube ao bloco
liderado pela Inglaterra, França e aliados; a derrota foi
impingida ao grupo liderado pela Alemanha que teve que aceitar a cobrança
de pesadas indenizações e ceder regiões do seu território.
Em fevereiro de 1917, o czar da
Rússia foi deposto por uma revolução popular. Inicialmente,
o poder ficou na mão dos burgueses, mas o proletariado, liderado
por Lênin assume o comando. Unida a diversos países eslavos,
a Rússia passou a se denominar União das Repúblicas
Soviéticas.
Os Estados Unidos da América
do Norte, minimamente afetados pela guerra, emergem como potência
mundial, substituindo a Europa. O Brasil também é favorecido,
recebendo estímulos para incrementar a industrialização
e acelerar o processo de urbanização. As exportações
de gêneros agrícolas são impulsionadas pela desorganização
da Europa, ajudando o governo de Venceslau Brás, presidente do Brasil
no período de 1914-1918, a se recuperar da queda no saldo das exportações
cafeeiras e da desvalorização da nossa moeda.
Em 1917, Lobato consegue vender
a fazenda Buquira e transfere-se para São Paulo. Se o período
de seis anos (1911-1917), no qual residiu na fazenda, foi escasso em produção
literária, a mudança para a capital iniciava uma época
profícua em obras: o Saci-Pererê, Urupês e Problema
Vital são publicados no mesmo ano. O primeiro discute nosso desenraizamento
cultural, tentando contrapor alguma brasilidade ao afrancesamento de nossa
cultura. Urupês nos apresentou ao Jeca Tatu; contudo, no livro “Problema
Vital”, Lobato se desculpa com o nosso caboclo, porque chega à conclusão
de que dois terços da nossa população está
doente. Portanto, Jeca Tatu não é assim; está assim
porque se encontra doente. E Monteiro Lobato entrega-se, de corpo e alma,
à batalha sanitarista, associado a Belisário Pena e Artur
Neiva.
Urupês, citado por Rui Barbosa
no seu discurso realizado a 20 de março de 1919 no teatro do Rio
de Janeiro, tem suas vendas multiplicadas. E a referência a
Jeca Tatu projeta a nível nacional o seu autor e também
alavanca-o a analista social respeitado.
A Revista Brasil é
adquirida por Lobato em 1918, dando início à sua participação
no cenário nacional também como editor. As características
que a fizeram uma publicação prestigiada e valorizada pela
nossa elite intelectual foram: seu conteúdo nacionalista, a veiculação
de informações sobre os prós e os contras do regime
comunista e o espaço cedido ao movimento modernista. A editora da
Revista Brasil prestigia jovens talentos nacionais e publica traduções
das obras de Henry Ford, muito admirado por Lobato, pelo seu pragmatismo
e métodos de gerenciamento .
Na redação da Revista
Brasil reunia-se a elite cultural para discutir política, filosofia,
artes e os assuntos do dia no país e no mundo. Os autores publicados,
especialmente os modernistas estreantes, dificilmente o teriam conseguido
em outra editora. Segundo Lobato, naquele tempo “para alguém editar
um livro tinha que possuir uma destas qualidades: ser rico, ter prestígio
junto a um medalhão, ou ser filho de pai ilustre”(16). Sua editora
diferenciou-se, também, por adotar novas estratégias de divulgação
e vendas, que atingiam toda nossa extensão territorial.
A partir de 1918, a burguesia industrial,
a classe média e o operariado, beneficiados pelo incentivo que a
I Guerra Mundial proporcionou à industrialização e
à urbanização, recomeçaram a contestar o poder
das oligarquias dominantes. Esses novos grupos sociais sentiam-se prejudicados
pela administração pública e se irritavam com a
corrupção desenfreada, a fraude nas eleições
e a política econômica do governo.
A burguesia industrial exigia mais
financiamento e novas medidas protecionistas. A classe média urbana,
aspirando participar do poder, lutava contra o coronelismo e a política
dos governadores, que lhes tiravam as possibilidades de vitória
nas eleições. Reivindicavam a moralização nas
eleições, as reformas eleitorais e o voto secreto.
A classe operária, que já
vinha se organizando desde as últimas décadas do século
XIX em
sindicatos, partidos políticos
e organizações operárias de defesa dos seus direitos,
passou a sofrer influências dos movimentos operários europeus.
Os imigrantes italianos e espanhóis eram os principais líderes
desses movimentos.
A burguesia industrial e as elites
políticas consideravam os movimentos operários como ocorrências
policiais a serem reprimidas com violência.
A primeira Greve Geral ocorreu em
1917, como conseqüência da I Guerra Mundial, que estimulou o
crescimento industrial, mas, em contrapartida, elevou assustadoramente
os preços. Clamavam também por melhores condições
de trabalho.
O Partido Comunista do Brasil é
fundado em março de 1922 e, após dois anos, tem que sobreviver
na clandestinidade.
Os militares de baixa patente, descontentes
com as instituições corruptas da República Oligárquica
e com o discreto poder político que detinham, iniciaram um movimento
armado para derrubar o governo. Esse movimento autoritário, elitista
e centralista ficou conhecido como Tenentismo.
Inseridas nesse contexto de rompimento
com o passado através de profundas transformações
políticas, econômicas e culturais decorrentes da I Guerra
Mundial, as vanguardas européias destroem as tradicionais formas
de representação estética. Novas concepções
como: cubismo, expressionismo, dadaísmo, etc surgem na década
de vinte.
No Brasil, o rompimento ocorre com
a Semana de Arte Moderna, realizada no Teatro Municipal de São Paulo,
entre os dias 11 e 18 de fevereiro de 1922. Apesar de ter sido desencadeado
sob influência da vanguarda européia, o movimento modernista
procurou extinguir tal submissão aos moldes europeus.
“Por isso mesmo o movimento modernista
de 1922, além de ser uma manifestação intelectual
e artística, foi um movimento político de contestação
à ordem vigente, na medida em que rompeu com a repressão
ideológica dominante” (17).
Monteiro Lobato, como verdadeiro
representante da estética do rompimento com as velhas e importadas
concepções artísticas, adverte os simpatizantes do
modernismo, para que se afastem dos “ismos estrangeiros”, ou seja, abstendo-se
de importar escolas prontas e acabadas, que nos desviariam ainda mais do
caminho rumo à nossa independência artística. Para
o escritor Lobato, o modernismo tem grande valor como meio de combate,
mas não como fim cristalizando-se em escola.
Na comemoração do
seu vigésimo aniversário, a Semana de 22 é analisada
por um de seus precursores: “O modernismo no Brasil foi uma ruptura, foi
um abandono de princípios e técnicas conseqüentes, foi
uma revolta contra o que era a Inteligência Nacional. É muito
mais exato imaginar que o estado de guerra da Europa tivesse preparado
em nós um espírito de guerra, eminentemente destruidor. E
as modas que revestiram esse espírito foram, de início, diretamente
importadas da Europa”; “quanto a dizer que éramos, os de São
Paulo, uns antinacionalistas, antitradicionalistas europeizados, creio
ser falta de sutileza crítica. É esquecer todo o movimento
regionalista aberto justamente em São Paulo e imediatamente antes,
pela Revista Brasil; é esquecer todo o movimento editorial de Monteiro
Lobato” (18).
A Revista Brasil funcionou como
editora durante aproximadamente um ano. Em 1920 surgiu a Monteiro Lobato
e Cia., que prosperava em ritmo acelerado, porém os vultosos empréstimos
tomados para montá-la, deixam-na em situação instável.
Os sócios optam pela abertura de capital, que viabilizaria a tão
sonhada expansão da Companhia.
A Companhia Gráfico-Editora
Monteiro Lobato surge, então, em maio de 1924, através do
remodelamento da companhia anterior
e tendo, entre seus acionistas a elite paulistana. Seu parque gráfico,
o mais moderno do país, confirmava o sucesso empresarial do ousado
Lobato. Novos maquinários são encomendados para atender a
demanda.
Infelizmente, em 1925, é
decretada a falência da nova Companhia: a Revolução
Paulista de 1924 e a grave seca de 1925 causam a derrocada da Companhia.
A Revolução Paulista
liderada pelo General Isidoro Lopes é duramente reprimida pelo Presidente
Artur Bernardes (1922-1926). O bombardeio das tropas legalistas sobre os
revoltosos é contínuo e desordenado. Na crítica de
Lobato ao Presidente, percebe-se o sofrimento do paulistano, que
cai aos milheiros: “Havia lá dentro 3000 rebeldes disseminados no
seio de uma massa de 800.000 civis.
O mais rudimentar cálculo
faria ver que, por força do bombardeio às tontas, seria mister
massacrar 270 civis para dar cabo de um revoltoso”(19).
O governo de Artur Bernardes consegue
sufocar a revolta, obrigando os rebeldes a abandonar a cidade. Os sobreviventes
juntam-se à Coluna Prestes, ponto culminante da luta armada dos
jovens oficiais brasileiros. O presidente Bernardes, porém, não
sairia vitorioso de seu mandato, quase todo ele governado sob estado de
sítio, com rígida censura à imprensa e severa
restrição aos direitos individuais.
A seca de 1925 obrigou a Light a
racionar a energia elétrica, impossibilitando à editora o
total aproveitamento de seu novo maquinário, o que lhe teria proporcionado
aumento suficiente de produtividade para pagar a sua aquisição.
O golpe de misericórdia é
desfechado pela política econômica do presidente Bernardes:
a moeda é desvalorizada para estabilizar a inflação.
A dívida em moeda estrangeira da editora tornara-se impossível
de ser resgatada. É decretada a falência.
Lobato não desiste, mesmo
com a perda de quase todo o seu capital e, no mesmo ano, monta uma
nova editora no Rio de Janeiro, a Companhia Editora Nacional. Redige também,
uma carta enviada ao Presidente Bernardes, contendo as assinaturas de personalidades
paulistas, onde defende a idéia do voto não-obrigatório
e analisa os acontecimentos ocorridos entre 1922 e 1924, mostrando as razões
da indiferença política dos brasileiros.
No Rio de Janeiro, dedica-se também
às traduções (cerca de 82 obras) e colabora nos jornais”
A Manhã “ e “O Jornal “, onde seus artigos analisam política,
economia e questões sociais, sendo, posteriormente reunidos no livro
Mr. Slang e o Brasil. A estabilização da moeda, imprensa,
imigração, justiça, moralidade administrativa, revoluções,
eleições, sistema tributário, voto secreto, burocracia,
estradas de ferro, trabalho, parasitismo, exército, marinha, transportes,
orçamentos, livros e editores, enfim, nada escapa à sua visão
crítica.
Com a eleição de Washington
Luís (1926-1930) para presidente, seu amigo Alarico Silveira é
designado para a chefia da Casa Civil. Lobato já havia tido contato
com Washington Luís, quando este, ao visitar a rede de ensino
em 1911, impressionou-se com um livro totalmente gasto pelo uso e muito
disputado entre as crianças. Da obra em questão, Narizinho
Arrebitado, encomendou 30.000 exemplares para as escolas públicas.
Assim, logo no início de seu mandato,o presidente convida o escritor
a assumir o cargo de adido comercial brasileiro em Nova Iorque.
Ë lançado o livro Na
antevéspera, coletânea de artigos publicados em jornais e
O Presidente Negro, seu único romance.
Monteiro Lobato parte para Nova
Iorque em 25 de maio de 1927, com a esposa e seus quatro filhos – Marta,
Edgard, Guilherme e Ruth – a bordo do navio “American Legion”. É
aconselhado a tomar cuidado com seus artigos, que estavam desagradando
os militares, segundo lhe comunica Alarico Silveira, antes do seu
embarque.
Como adido comercial, Lobato deveria
aumentar a aceitação e a importação dos produtos
brasileiros nos mercados da América do Norte e Central.
Deveria auxiliar na identificação
de produtos que seriam bem aceitos, ou detectar quais características
eram exigidas em determinados produtos, incrementando, assim, o comércio
brasileiro
Lobato assume o cargo extremamente
motivado: seu primeiro relatório procurava analisar os fatores determinantes
para o desenvolvimento dos EUA. Insiste na necessidade de adotarem uma
estratégia mercadológica agressiva, divulgando o Brasil e
seus produtos. Sugere também que se considerem os altos impostos
de exportação dos nossos produtos, prejudiciais à
nossa competitividade. Pondera ser impossível corresponder à
rapidez e à pressão exigidas pelos americanos durante as
consultas ou negociações, sem uma rede de informações
perfeitas: “A representação comercial de um país só
se justifica se traz esta rapidez e segurança. Fora daí escapa
de seus fins e degenera em parasitismo” (20). Mas, o que fazer, se
as consultas que retransmitia ao governo brasileiro, ou ficavam sem resposta,
ou demoravam meses para serem enviadas?
Lobato, portanto, estava convencido
da importância crucial da informação para, juntamente
com a propaganda, retirar o Brasil da posição secundária
que ocupava.
Pragmático, sugere também
a reunião, num mesmo edifício, de todos os serviços
que o Brasil oferecia na cidade, agilizando-os.
Contudo, todas essas sugestões,
não recebem sequer respostas ou comentários do governo brasileiro.
Frustra-se ao compreender o desinteresse total da máquina
governamental em desenvolver nosso país.
O balanço de 1928 sobre o
comércio Brasil-Estados Unidos resumia-se a dois únicos produtos:
café e cacau.
Insiste em que, havendo equivalência
de preço, o mau desempenho dos outros produtos poderia ser atribuído
à sua apresentação ou à não-classificação
em tipos padronizados.
Conclui sugerindo o incentivo ao
turismo e enfatizando que o Brasil poderia responder à quase
totalidade da demanda americana de matérias-primas se investisse
no aperfeiçoamento dos produtos, no aparelho comercial, no sistema
de produção e na rede de transporte.
Tentando compreender, de uma forma
simplista, as razões do acelerado desenvolvimento americano, conclui
serem fundamentais o ferro, o combustível e o trigo.
Em seus negócios particulares,
Monteiro Lobato, entusiasmado com a economia americana, tentou investir
na bolsa de valores, vendendo, então, a sua parte na editora brasileira;
entretanto, é surpreendido pela queda da Bolsa de Nova Iorque
em 1929. Mais uma vez, perdia todo o seu capital .
A quebra da bolsa de Nova Iorque foi causada por um descompasso entre a
produção e o consumo, ou seja, entre a oferta e a procura.
Os Estados Unidos já eram a maior potência capitalista, com
uma produção industrial equivalente a 45% da produção
mundial. Os mercados asiáticos e latino-americanos, dominados
até a Primeira Grande Guerra pelos europeus, haviam cedido ao poderio
americano. Nessa conjuntura, após a década de vinte, houve
um investimento maciço na produção, visando obter
aumento de lucros.
A superprodução sem
consumo compatível gerou desemprego, falências generalizadas
e queda dos preços de até 80%. O pânico dissemina-se
pelo mundo.
No Brasil, cuja economia era baseada
na exportação cafeeira, os efeitos foram devastadores. Os
banqueiros internacionais passaram a exigir o pagamento dos empréstimos
concedidos. O preço da saca de café desaba, mas as vendas
continuam estagnadas. Os cafeicultores tentam obter sem êxito empréstimos
e prorrogações das dividas com o presidente Washington Luís.
O enfraquecimento da oligarquia
cafeeira propicia a Revolução de 1930. A Aliança Liberal,
do candidato Getúlio Vargas, é derrotada em eleições
fraudulentas pelo candidato situacionista Júlio Prestes.
O assassinato de João Pessoa,
candidato a vice presidente da Aliança Liberal, precipitou os
movimentos contestatórios,
que já se formavam contra a eleição de Júlio
Prestes. As agitações populares e as articulações
dos tenentes inquietavam as oligarquias. Temeroso de uma revolução
popular, Antônio Carlos, governador mineiro, declara: “Façamos
a revolução antes que o povo a faça”. (21)
Depois de seguidas movimentações
de tropas de várias regiões brasileiras, em 24 de outubro
de 1930, uma junta militar depõe o presidente Washington Luís,
entregando o poder ao chefe da Aliança Liberal, Getúlio Dornelles
Vargas.
O rádio popularizava o samba,
que desceu, definitivamente do morro para a cidade. O cinema falado divulgava
o “american way of life’’ e as expressões estrangeiras. As canções
norte-americanas e francesas eram
executadas com freqüência nas rádios brasileiras. No
entanto, todo esse complexo fenômeno cultural restringia-se às
cidades.O interior do país mantinha-se fiel à cultura regional
e folclórica.
Na literatura, Carlos Drumont de
Andrade publica seu primeiro livro, Alguma Poesia, que se integrava à
visão modernista, mas continha traços de ironia inovadores.
A ficção regionalista passa a predominar, revelando Graciliano
Ramos, José Lins do Rego, Jorge Amado e Érico Veríssimo.
O caráter de realismo crítico, fixado na realidade social
brasileira, representou a direção tomada pelos melhores regionalistas.
A crítica em tom burlesco marcou Serafim Ponte Grande (1933) de
Oswald de Andrade.
Já a publicação
de Casa Grande e Senzala de Gilberto Freire marcou o início da reflexão
crítica sobre a formação cultural brasileira e suas
características econômico-sociais. Em 1935, Raízes
do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, trouxe novos elementos
para a discussão crítica da realidade brasileira.
Monteiro Lobato é demitido
do cargo de adido comercial por Getúlio Vargas. Retorna ao Brasil
e reinstala-se em São Paulo.
Irá dedicar-se a dois sonhos:
a literatura infantil iniciada em 1920 terá a exclusividade do Lobato
escritor. Como ele mesmo revela, estava cansado de escrever para adultos,
provavelmente, já muito corrompidos para serem “saneados” pelas
suas obras.
O segundo sonho ocupará o
empresário Lobato, na tentativa de implantação no
Brasil de um processo revolucionário de extrair o minério
de ferro a baixa temperatura (processo Smith).
O empresário e o escritor,
no entanto, eram impulsionados pelo mesmo ideal: transformar o Brasil em
uma nação rica, eficiente e próspera, cuja população
fosse capaz “de exercer uma discriminação crítica
em face das verdades a ela apresentadas”(22)
Os livros infanto-juvenis do autor,
tal qual sua produção para adultos, enfocavam os problemas
brasileiros, sendo que, na primeira, isso ocorre através do resgate
do imaginário rural, com suas lendas e folclore, descortinando o
universo popular brasileiro. Também escreveria obras infantis mais
didáticas, ensinando de forma lúdica gramática, matemática,
história mundial, etc.
Lutando pelo seu sonho de
empresário, inicialmente através da máquina governamental
e depois, através da iniciativa privada, tenta montar uma companhia
siderúrgica baseada no processo Smith. O poderoso capitalista norte-americano
Percival Farguhar, interessado em impedir a produção siderúrgica
autônoma no Brasil e em explorar o minério de ferro de Minas
Gerais, consegue obstaculizar todas as tentativas da nova companhia .Após
seis anos de lutas quixotescas, desiste do projeto e inicia sua epopéia
do petróleo.
Para Lobato, o solo propicia a subsistência
e apenas o subsolo permite o enriquecimento. E’claro que também
era necessário, ao contrário do ocorrido com o ouro brasileiro,
que o enriquecimento gerado pelo petróleo fosse usufruído
pelo país.
Para iniciar o projeto, Lobato promove
conferências sobre o petróleo em vários estados brasileiros
e consegue reunir o capital necessário para os estudos geológicos
iniciais, mas a produção de petróleo exige altos investimentos,
tecnologia de vanguarda e um longo período de testes e sondagens.
Além desses inconvenientes, enfrenta a oposição
de trustes estrangeiros e a descrença das elites brasileiras em
relação à existência de petróleo em nosso
subsolo.O próprio ministro, Juarez Távora, afirmava que petróleo
no Brasil era “coisa de comunistas”.
Lobato denuncia as manobras da Standard
Oil, multinacional do petróleo, visando difundir a idéia
da inexistência de petróleo em nosso subsolo. Envia várias
cartas às autoridades do governo, inclusive ao presidente Getúlio
Vargas e aos militares em busca de apoio. Publica o livro O Escândalo
do Petróleo em agosto de 1936, que alcança 20.000 exemplares
vendidos até o final do ano e que reunia todas as denúncias
sobre a exploração de petróleo no Brasil.
A campanha pelo petróleo
recebe apoio da Aliança Nacional Libertadora (ANL), grupo que tinha
apoio de Luiz Carlos Prestes, de diversos líderes sindicais e de
líderes tenentistas. A ANL era uma frente de oposição
ao fascismo e ao imperialismo, composta por comunistas, socialistas e liberais
antifascistas com propostas amplas de caráter popular e revolucionário.
Getúlio Vargas, alegando
o perigo da “ameaça comunista”, decreta, em 10 de novembro de 1937,
o estado de guerra, suspendendo os direitos e garantias individuais e dando
início ao Estado Novo. O governo ditatorial passou a exercer censura
prévia dos meios de comunicação e a combater violentamente
seus adversários. Jamais conseguiriam, contudo, calar Monteiro Lobato.
É criado o Departamento de
Imprensa e Propaganda, que exerceria a censura e produziria a Hora do Brasil,
programa radiofônico transmitido em cadeia nacional.
Getúlio Vargas convida Lobato
a assumir o Departamento de Imprensa e Propaganda, mas o escritor recusa
o cargo. O ditador não havia percebido ainda que Monteiro
Lobato não aceitaria “cabrestos” e, por esse mesmo motivo,
jamais havia se candidatado a um cargo (exceto na mocidade, em Areias)
ou se filiado a partido.
O Conselho Nacional de Petróleo
é criado em 1938. As pressões dos nacionalistas estavam
causando a lenta incorporação
de suas idéias pelo Estado.
Em 27 de janeiro de 1941, é
decretada a prisão de Lobato por ofensas ao Conselho Nacional de
Petróleo. O escritor permanece durante quatro dias na cadeia, mas
o processo continuava tramitando, e, menos de dois meses após a
sua primeira reclusão, Monteiro Lobato é preso novamente.
A prisão preventiva é decretada porque Lobato pretendia viajar
para a Argentina a negócios.
O julgamento em primeira instância
o absolve; porém, em 20 de maio de 1941, Lobato é condenado
pelo Tribunal Pleno a seis meses de prisão. A condenação
ocorre em virtude da impertinência do escritor, que envia uma carta
irônica ao General Horta Barbosa, agradecendo o período na
cadeia juntamente com uma caixa de bombons. Remete também duas cartas
ao presidente: a primeira deseja a Vargas “menos retratos na parede e mais
coragem nos corações dos que lhe escrevem” (23) e a segunda
parabeniza-o pelo seu aniversário e o presenteia com a idéia
da criação de uma Companhia Nacional de Petróleo,
nos moldes da recém-criada Companhia Siderúrgica Nacional.
Monteiro Lobato não se emenda
e escreve a Fernando Costa, no dia de sua posse como
interventor em São Paulo,
agradecendo a estada na prisão, que lhe permitiu o ensejo de conhecer
as monstruosidades da Polícia de São Paulo e alerta: “não
me consta que haja alguma lei autorizando a aplicação de
torturas no Brasil. A solução tem que entrar neste dilema:
ou a polícia suspende as torturas ou o Estado Novo as legaliza,
restaurando uma daquelas velhas leis da Inquisição na Espanha”(24).
O Brasil, finalmente, começava
a esgotar Lobato, cansado de denunciar as mazelas brasileiras, ferido pela
perda de seus dois filhos (Edgard e Guilherme) ceifados pela tuberculose,
humilhado por necessitar da ajuda de amigos para estabelecer residência
fixa (fora dos hotéis).
A II Guerra Mundial (1939-1945),
onde se enfrentavam as potências do Eixo (Alemanha, Itália
e Japão), e as potências Aliadas (lideradas pela Inglaterra,
França, Estados Unidos e União Soviética) passou a
exigir do Brasil um posicionamento. Getúlio Vargas, que procurava
manter a neutralidade para obter maiores vantagens econômicas, foi
obrigado a optar pelos aliados (apesar de seu governo ser ideologicamente
mais próximo do Eixo, os Estados Unidos ofereciam maior retorno
financeiro).
A Alemanha ataca o Brasil em agosto
de 1942 e o país declara guerra às potências do Eixo.
À medida que as potências
aliadas foram derrotando militarmente as potências do Eixo, um clima
favorável às idéias democráticas foi se espalhando
pelo mundo e, pouco a pouco, o Estado Novo de Vargas se enfraquece.
Em fevereiro de 1945, sob pressões
externas e internas, principalmente dos EUA, Vargas fixa a data para
as eleições presidenciais, para governadores de estado, para
o Congresso Nacional e Assembléias Legislativas Estaduais.
Monteiro Lobato reanima-se ligeiramente
ao se associar, em 1944, à editora Brasiliense, que iria publicar
suas Obras Completas em trinta volumes (geral e infantil).
Lobato resolve viajar, a pedido
da família, para se afastar dos problemas brasileiros que tanto
o envolviam e desgastavam. A Argentina acolhe carinhosamente o escritor,
em junho de 1946; contudo, ele não suporta ficar mais de um
ano fora do Brasil.
Durante esses últimos anos
de vida, não escreveu muito, porém continuava um crítico
mordaz e um grande analista. Sobre a situação mundial do
pós-guerra pondera: “Vejo três vitórias na guerra em
curso, a Inglaterra obterá a Vitória Moral, porque nunca
um povo se mostrou tão nobre e forte. Os Estados Unidos obterão
a Vitória Comercial, porque nunca um país terá ficado
mais senhor de todos os mercados do mundo. A Rússia obterá
a Vitória
Política, pois daqui por
diante não se dará mais um só passo político
sem ter em conta a Rússia”(25). Monteiro Lobato sofre um espasmo
vascular cerebral em 21 de abril de 1948, ficando em estado comatoso por
algumas horas. Recobra a consciência, porém, o acidente vascular
deixa como seqüela uma agrafia bastante nítida. O escritor
é atingido, justamente, no que lhe é mais caro: sua capacidade
de ler e escrever. O doente recupera-se lentamente, contudo, segundo o
próprio Lobato: “o que eu tive foi uma demonstração
convincente de que estou próximo do fim – foi um aviso – um preparativo.
E de agora por diante o que tenho a fazer é arrumar a quitanda para
a grande viagem, coisa para mim que perdeu a importância depois que
aceitei a sobrevivência (...)
Estou com uma curiosidade imensa
de mergulhar no Além. Isto aqui, o corporal, já está
mais do que sabido e já não me interessa. A morte me parece
a maior das maravilhas: isto mesmo que tenho aqui, mas sem o corpo ! (...)
Tenho planos logo que lá chegar, de contratar o Chico Xavier para
psicógrafo particular (...)”(26).
O ilustre brasileiro viaja a 4 de
julho de 1948. Como descreve Ricardo Maranhão: “(...) o ruído
do seu cortejo fúnebre era facilmente abafado pelo burburinho de
São Paulo, cidade cujos horizontes já apresentavam o desenho
das chaminés de fábrica como perfil mais marcante. Muitos
quilômetros além, o choro saudoso dos seus amigos dos arredores
de Taubaté ainda podia confundir-se com o gemido dos carros de boi;
mas os jecas-tatus do Vale do Paraíba, apesar de continuar, na sua
maioria pobres, já podiam ver o produto de seu trabalho escoado
nos vagões de velozes e barulhentos trens de carga, ou no dorso
de caminhões”(27).
A HOMEOPATIA NO BRASIL, dividida em períodos segundo Madel Luz
Período de Implantação (1840-1859)
Nesse período, já
existiam no país as Escolas de Medicina ( Rio de Janeiro e Bahia)
e a Academia Imperial de Medicina.
A medicina alopática procurava
obter o monopólio da arte e do saber de cura e já criticava
a homeopatia antes mesmo de esta ser introduzida no país.
Em 1840, o Dr. Benoît Mure,
médico francês, chega ao Rio de Janeiro e é
considerado o introdutor da homeopatia no país.
A medicina alopática procura
expandir seus poderes através de campanhas públicas, publicações
em periódicos e jornais, especialmente através
de teses acadêmicas que irão referenciar a sua superioridade.
Esse período será
caracterizado por grandes debates e polêmicas entre a medicina alopática,
tachada de arcaica, e a medicina homeopática, acusada de
não-científica. As batalhas serão travadas na imprensa,
nas escolas médicas existentes, na Academia de Medicina, nos poderes
públicos e na sociedade civil.
O Dr. Mure sofre ataques pessoais,
sendo acusado de inúmeros crimes, até mesmo de assassinato.
A alopatia prefere manter as discussões
afastadas do meio acadêmico e acusar os homeopatas de vários
delitos: morais, políticos, sexuais, etc. Recusa-se, também,
a participar dos desafios terapêuticos propostos pelos homeopatas.
O Instituto Homeopático do
Brasil é fundado em dezembro de 1943 pelos doutores Benoît
Mure, João Vicente Martins, Domingos Duque Estrada e Francisco Alves
Moura. No ano seguinte, o Governo Imperial autoriza a criação
da Escola Homeopática, a qual aceitará formar uma clientela
leiga, sem exame prévio e num tempo menor do que o exigido pela
Escola Alopática. O currículo será substancialmente
diferente nas duas Instituições.
A alopatia ressente-se de perder
a exclusividade na concessão de diplomas. A homeopatia procura fundar
hospitais, dispensários e clínicas para comprovar a sua eficácia
terapêutica e utiliza-se da imprensa para divulgá-la. Os fazendeiros,
padres e boticários difundem-na no interior do país, adotando-a
pelos seus baixos custos.
O ano de 1847 marca início
das dissidências entre os homeopatas. Nesse mesmo ano, é formada
a Academia Médica Homeopática por um grupo divergente do
Instituto Homeopático.
O Dr. Mure deixa o país
em 1848, cansado das falsas acusações; o Instituo Homeopático,
assim como a Escola Homeopática ficam sob responsabilidade do Dr.
João Vicente Martins, considerado o maior divulgador da doutrina
no país.
Período de Expansão (1860-1882)
Não podendo atuar na esfera
institucional, os homeopatas adotam novas estratégias de divulgação,
entre elas, a publicação nos jornais de acontecimentos favoráveis
como: criação de escolas, cura de personalidades, cobertura
de eventos e conferências e relatando o desenvolvimento da
homeopatia no Brasil e no exterior.
Com o respaldo da população,
a doutrina de Hahnemann conquista alguma oficialização, atuando
em hospitais particulares, militares ou de ordens religiosas. Graças
também à aceitação popular, intensifica-se
a interiorização geográfica da homeopatia.
Os jornais são utilizados
para sugerir medicamentos à população durante as epidemias.
Consultórios gratuitos multiplicam a clientela urbana.
A nova geração de
homeopatas não tem, face à medicina alopática, a mesma
postura dos precursores: a homeopatia e a alopatia, para os novos adeptos,
diferem apenas na abordagem e na terapêutica, mas a medicina, o saber
médico, são idênticos.
Na epidemia de febre amarela de
1873, finalmente as duas doutrinas são comparadas em relação
à eficácia terapêutica: a mortalidade entre os pacientes
tratados pela homeopatia fica em 18,99% contra 31,62% dos tratados pela
medicina ortodoxa.
O Instituto Hahnemanniano do Brasil
é fundado em 1878 segundo decreto do governo imperial (inicialmente
sob o nome de Instituto Fluminense) e, no mesmo ano, cria o Jornal Annaes
de Medicina Homeopática visando acentuar o caráter científico
da doutrina.
O espiritismo começa a sua
participação na divulgação da homeopatia, o
que terá grande relevância, principalmente nos períodos
de declínio.
Em 1882, um parecer negativo dado
pela Congregação da Faculdade de Medicina do Rio de
Janeiro acaba com o sonho de serem
obtidas duas cadeiras na referida instituição para
o ensino homeopático.
Período de Resistência (1882-1900)
A derrota institucional causada pelo
parecer, solicitado pelo Imperador, e as razões citadas no referido
documento têm grande repercussão negativa. O Dr. Joaquim Murtinho
contesta o parecer, através do Jornal do Comércio, e a polêmica
se instaura.
Nesse período, o sanitarista
Dr. Oswaldo Cruz, unido às instituições médicas
difama a homeopatia, não aceitando sua colaboração,
nem mesmo à epoca das grandes epidemias.
Abalado pelas críticas
de Oswaldo Cruz, o Instituto Hahnemanniano entra em declínio. Nos
consultórios e dispensários, entretanto, as estatísticas
são favoráveis à homeopatia; a vanguarda dos
homeopatas freqüenta congressos europeus e mantém uma produção
científica considerável, apesar da revolução
pasteuriana e do higienismo.
Período Áureo (1900-1930)
O positivismo, que exercia grande
influência na Primeira República, especialmente nos meios
militares, mantém em relação à homeopatia
antagonismo teórico evidente. Entretanto, pressionados pela
importância dessa doutrina, vários homeopatas tentam provar
que a homeopatia também é uma ciência positiva. E,
contraditoriamente aos princípios da sua própria ideologia,
são os militares positivistas que adotam a doutrina de Hahnemann.
Na Revolta da Vacina (1904), por
exemplo, serão encontrados, lado a lado, positivistas, militares
e homeopatas contra os sanitaristas do Estado.
Nesse período, a homeopatia obtém a tão sonhada oficialização
do seu saber médico: são criadas duas faculdades de Medicina
Homeopática (Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul), um hospital homeopático
e Ligas de Homeopatia.
A corporação médica
ortodoxa continua sua luta para obstaculizar o avanço da homeopatia,
não só por suas diferenças doutrinárias, como
pela competição que ocorre pela ampliação da
clientela, manutenção do poder junto ao Estado e pelo
monopólio do mercado de trabalho da cura e da produção
das verdades científicas.
No ano de 1926 ocorre o 1º
Congresso Brasileiro de Homeopatia; as idéias positivistas
mantêm-se presentes no meio
homeopático.
A interiorização prossegue
através de médiuns, fazendeiros, padres e curandeiros que
compravam os medicamentos de farmácias caseiras.
O Declínio Acadêmico (1930-1970)
Esse período foi marcado pelos
grandes progressos tecnológicos da medicina e pelo silêncio
da medicina ortodoxa sobre a medicina homeopática. Ainda assim,
ocorre o reconhecimento da homeopatia pelos poderes legislativo e executivo.
O Instituto Hahnemanniano fica estagnado
em baixíssimos níveis de produção acadêmica
e permite a difusão da idéia de que a homeopatia é
uma doutrina ultrapassada.
Os grandes laboratórios farmacêuticos
se instalam no país. A medicina tecnológica difunde os antibióticos,
as especialidades médicas, o modelo de atenção médico-hospitalar,
determinando a decadência, não só da homeopatia, mas
da própria clínica geral e medicina preventiva.
A homeopatia tenta se adaptar à
nova linguagem do saber médico, às suas especialidades e
descobertas científicas, mas o retorno, no plano acadêmico,
não é o almejado. Há a perda do controle sobre a Faculdade
e o Hospital Homeopático do Rio de Janeiro.
Apesar dos reveses, ocorrem inúmeros
congressos e a clientela se mantém estável. Já o número
de “conversões” de médicos alopatas à homeopatia
torna-se insignificante.
A homeopatia alcança também
a condição de órgão de utilidade pública
em vários estados, firmando-se junto ao poder governamental que
sucede o Estado Novo de Getúlio Vargas.
Nos centros espíritas e terreiros
de umbanda a homeopatia é a terapia mais difundida, junto com a
fitoterapia. Muitas vezes é prescrita por médiuns ao invés
de médicos. Nesse período, portanto, reforça-se a
associação da homeopatia com misticismo, o que irá
afastar parte da sua clientela potencial.
Os militares homeopatas, nesse período
de declínio, contribuíram para a sua institucionalização.
MONTEIRO LOBATO E A HOMEOPATIA
Monteiro Lobato descobre a eficácia
da homeopatia através da resolução da rinite de seu
filho Edgard em 1917. A doença, que segundo um ilustre médico
alopata de São Paulo, só teria cura na idade adulta, desaparece
com alguns “carocinhos”.
Pragmático, assim que percebe
o resultado de sua própria indicação terapêutica,
obtida através de um encontro casual com um livro de Bruckner, O
médico homeopata , encomenda um exemplar para uso próprio
e também uma caixa de medicamentos completa da farmácia
Almeida Cardoso.
Tratando alguns amigos na Fazenda
Buquira, fica famoso por suas curas, com fama de mágico. Segundo
Lobato, até gente do município vizinho veio se “consultar
“, atrás dos carocinhos mágicos .
Segundo Hilda Villela, pesquisadora
da Biblioteca Infantil Monteiro Lobato, o escritor se consultava com o
Dr. Murtinho Nobre em São Paulo e manteve grande simpatia pela homeopatia
até o final de sua vida. Segundo a professora Hilda, Monteiro Lobato
estava sempre tomando algum medicamento homeopático. Em relação
à tuberculose, que matou dois filhos do escritor , a pesquisadora
não sabe se foi utilizada a medicação homeopática.
As cartas transcritas a seguir,
extraídas de sua obra, confirmam o uso da homeopatia e sua confiança
no Dr. Murtinho Nobre, indicando-o para seu grande amigo Godofredo Rangel.
Em sua obra há algumas citações
de nomes de medicamentos, porém o texto não permite
diferenciar se o uso era homeopático ou fitoterápico:---“Só
em minha mulher não deu a infernal gripe, mas deu no pobre Adalgiso.
Acabo de vir do cemitério onde o enterramos. Morreu ontem(...) dias
depois de sair no Estado (de São Paulo) o seu último artigo,
um em que fazia a mais extravasante apologia do Gelsemium para gripe.”
(28)-___ “ Como está o coração ? Conheces a
Digitalis ? o Estrofanto ?” (29)
As Cartas
Carta 1 30
Fazenda, 3/3/1917
Rangel:
A homeopatia!... Eu pensava como
você; ou, pior ainda, não me dava ao trabalho de pensar coisa
nenhuma a respeito. Não acreditava nem descria – não pensava
no assunto e pronto. Mas um dia sobreveio o “estalo” e fiquei tonto. O
meu Edgarzinho apareceu com uma doença no nariz. Isso na fazenda.
Ele tinha dois anos. Corro a Taubaté, consulto os médicos
locais. “O melhor é ver um especialista em São Paulo”. Vamos
para São Paulo. “Quem é o baita para narizes?” J. J. da Nova.
Vou ao Nova. Examina, cheira, fuça
e vem com um grego: “Rinite atrofica. Só pode sarar lá
pelos 18, 20 anos – mas vá fazendo umas insuflações
com isso” e deu-me uma droga e um insuflador. Voltamos para Taubaté,
muito desapontados. Dezoito anos! Mas minha casa lá era defronte
à duma prima. Vou ve-la. Tenho de esperar na sala de visitas
um quarto de hora. Em cima da mesa redonda está um livro de capa
verde. Abro-o. “Bruckner, O Medico Homeopata”.
Instintivamente procuro a seção
Nariz. Leio conjuntos de sintomas. Um deles coincide com os sintomas da
rinite do Edgard. Prescrição: “Mercurius”. Entra a prima.
Conto o caso do menino e aquele encontro ali. “Vale alguma coisa isto de
homeopatia?” pergunto, céptico. E ela:
“Experimente. Não custa”.
Quando saí passei pela farmacia. “Tem Mercurius?” Tinha. Comprei
cinco tostões. “Almeida Cardoso – Rio”. Levo para casa. Falo à
Purezinha. Sem fé nenhuma, dou automaticamente os carocinhos ao
Edgard, mais do que mandavam as instruções. Cinco em vez
de três. Depois, mais cinco. De noite, mais cinco. No dia seguinte,
o milagre: todos os sintomas da rinite haviam desaparecido!... Mas sobreviera
uma novidade: purgação nos ouvidos. Cheio de confiança,
corro à casa da prima, atrás do livro de capa verde. Procuro
“Ouvidos” e leio esta maravilha: “Às vezes sobrevém purgação
no ouvido por abuso de Mercurius e, nesses casos, o remédio é
Sulfur”. Vou voando à farmacia. Compro Sulfur. Mais 500 réis.
Dou Sulfur ao Edgard e pronto – sarou do ouvido! Sarou da rinite, sarou
de tudo! Preço da cura: 100 réis. Pela alopatia, em troca
da não cura: várias consultas médicas, viagem a São
Paulo, drogas insuflantes e aparelho insuflador – e a desesperança.
Que fazer depois disso,
Rangel, senão mandar vir um livro de capa verde e uma botica com
todas as homeopatias do Almeida Cardoso? Cem mil réis custou-me
e desde então curo tudo. Curo tudo em casa e no pessoal da fazenda.
Fiquei com fama de magico. Vem gente dos sitios vizinhos. “Ouvi dizer que
o senhor é um bom doutor que cura”- e curo mesmo.
Chega a vir gente até do
municipio vizinho atrás dos “carocinhos magicos”...
Lobato
Carta 2 31
São Paulo, 15/1913
Teca
O baraticida que eu usava
chamava-se Kammeyager. Não o encontrei por isso vai um outro que
me garantem tão bom como ele. Encontra-se na casa L. de Sousa –
Largo do Rosário.
A camomila dá-se em
doses de 4 a 6 glóbulos de 2 em 2 ou 3 em 3 horas aos primeiros
sintomas de qualquer doença. É um remédio geral e
inicial enquanto não se define a moléstia. Para baratas é
muito bom o bórax ou ácido bórico misturado com açúcar
e do qual elas são muito gulosas.
Por aqui nada de novo a não
ser uma velha garoa que se eterniza.
Adeus, um beijo na sobrinha e recomendações
da patroa do Juca
Carta 3 32
1915 (provavelmente)
Teca
Purezinha mandou-te uns bolinhos
de milho e eu juntei a eles uma ninhada de ovos de Orpington preta para
chocares, havendo jeito, ou comê-los. Também pus no caixão
um lombo defumado, mas não sei em que estado chegará aí;
se estragou foi pena, pois estava ótimo. As rapaduras é invenção
de Marta para a Gulnara. O Guilherme também trouxe para a Gonaia
uma batelada de “presentes” para eu meter no caixão: coquinhos de
jerivá, e mil coisas mais, que eu fingi encaixotar e deitei fora.
Valha o boa intenção. O Rangel, muito doente, veio a São
Paulo tratar-se e eu indiquei-lhe o Murtinho Nobre. Caso ele precise e
te peça uma recomendação explique você
ao Heitor quem é Godofredo Rangel e peça ao H. a carta,
caso o H. se dê com o Murtinho.
Adeus. Estou com a cabeça
pesada de estupidez.
Juca
Carta 4 33
Buquira, 17/07/1917
Teca
Você escreveu-me há
dias falando numa segunda remessa de ovas e deixou-nos a aguar. Que venha,
se ainda as há, que eu gosto de ovas como o Rodrigo de içás.
Ainda não decidi o negócio da fazenda; estamos a debater
preço por carta; se chegar a um acôrdo, vendo. E vendo para
pagar minhas célebres dívidas e gozar as delícias
de andar de cabeça alta. Hoje Janzinha, Eugênia e a criançada
foram passar o domingo na vila. Veja você que felicidade a vida da
roça!
Tens visto o Eduardo? Parece que
é mau o estado dele, pelo que contam as cartas. O calcanhar de um
e o ouvido de outro; Eugênia e Dolores têm sofrido um
bocado. Eu tenho sido tão feliz com os meus, que até receio
de repente chegar a reboldosa. A gravíssima rinite do Edgard, que
só sararia com a idade, aos 20 anos, sarou com 10 caroços
de homeopatia. E assim os grandes males que caem por casa abortam em coisinhas
sem importância. Tenho acompanhado os trabalhos de Heitor na Câmara.
Está ele mais satisfeito agora?
Muitas saudades da Pureza e lembranças
ao H. e à G. (diga ao H. que no Camilo encontrei uma Gulnara).
Juca
CONCLUSÃO
Monteiro Lobato , como positivista
e amigo de sanitaristas importantes, apresentava vários motivos
para se manter totalmente descrente da homeopatia. Esse grande pioneiro,
contudo, jamais emitia opinião sobre um assunto antes de conhecê-lo
e não rejeitava nada antes de experimentar.
Assim, apesar da incerteza , Lobato
prefere testar a homeopatia para, através da experiência
, formar uma opinião a respeito. Eficácia comprovada,
seu pragmatismo estava satisfeito.
A data do seu contato inicial com a homeopatia ficou confusa, pois a carta
que se refere à indicação do Dr. Murtinho Nobre (esta
sem data exata, traz a indicação dos editores como sendo,
provavelmente, de 1915) e a carta sobre o uso da camomila (1913) são
anteriores à carta em que se refere à cura do filho Edgar.
Esta última, pelo seu texto, parecia se referir ao contato inicial
com a doutrina, mas pelo conteúdo das demais, o escritor já
tinha um conhecimento prévio ou, pelo menos, atribuía-lhe
algum crédito, já que indica o Dr. Murtinho Nobre, homeopata
de renome, a seu melhor amigo.
Após essas cartas, entretanto, não se encontram mais referências
em suas cartas. Mesmo durante a doença dos filhos (tuberculose),
não se encontram referências a remédios homeopáticos.
E, em cartas a amigos que enfrentavam
a mesma doença, após a morte dos seus filhos, encontram-se
presentes nomes de remédios alopáticos (antibióticos).
Na última carta do livro A Barca de Gleyre há a referência
ao estrofanto e a digitalis, mas o escritor também se refere
a uma consulta com um médico alopata, Dr. Jairo Ramos .
Apesar disso, a pesquisadora, amiga pessoal e personagem de seus livros
infantis, Hilda Villela, interrogada a respeito, afirma que Lobato jamais
deixou de usar a homeopatia, porém não sabe se esta foi utilizada
na doença dos seus filhos. Terá sido usada com insucesso
e isto terá motivado o silêncio, ou existirão outras
referências em cartas não publicadas? Uma pesquisa mais extensa
terá que ser realizada para responder a questão e confirmar
as palavras da pesquisadora de que Monteiro Lobato utilizou
a homeopatia até o fim de sua vida.
As curas realizadas na fazenda por Lobato confirmam a interiorização
da homeopatia realizada por fazendeiros, como descreve Madel Luz.
O seu pioneirismo em todas as áreas em que incursionou, assim como
sua coragem em defender, não só a homeopatia, mas também
o espiritismo (adotado após a morte dos filhos), confirmam a grandeza
e autenticidade desse brasileiro.
Como já
haviam percebido os homeopatas brasileiros há anos, a divulgação
de curas de personalidades reconhecidas ajuda a promover a homeopatia.
Quanto mais em evidência estivesse a figura pública em questão,
maior seria a sua capacidade, à medida que sua história fosse
revelada, de converter adeptos.
Ao ler a biografia e a obra de Monteiro
Lobato no seu contexto histórico, fica patente a pequenez de se
atribuir a ele a capacidade de converter pessoas à homeopatia
ou a outras causas, apenas pela sua fama.
Tanto pelo seu exemplo de vida independente
e idôneo, quanto pela ideologia presente na suas obras infantis e
para o público em geral, Monteiro Lobato ajudou a moldar brasileiros
mais criativos, com a fortaleza necessária para adotar princípios
e valores que atendessem apenas à própria consciência.
Através de sua biografia
percebe-se o claro propósito que o impeliu a procurar, muitas
vezes, os caminhos mais difíceis, enfrentando riscos e aborrecimentos
sem desistir do objetivo maior de apontar o caminho da luz – como ele a
compreendia – para a tomada de consciência da sociedade brasileira.
Neto de Visconde, não se
acomodou como aristocrata. Advogado, não se contentou com um cargo
público. Fazendeiro, tentou compreender a realidade do mundo
rural e modernizá-lo. Escritor, opõe-se ao nacionalismo ufanista
que vendia milhares de obras. Editor, não publicou só
os famosos, abriu espaço para o talento brasileiro. Como membro
do governo nos EUA, não se contentou em dependurar-se nas “tetas”
do governo, pelo contrário, mordia-as sempre buscando acordar a
pátria adormecida que montava escritores no exterior com finalidade
meramente figurativa. Como empresário, buscou desenvolver negócios
que ajudassem no crescimento e na independência da pátria.
Revolucionário nas suas idéias, nunca buscou a luta armada.
Intelectual, nunca se manteve apenas no plano das idéias. Brasileiro,
nunca deixou de amar sua pátria, nem de perceber seus defeitos.
Através de seus livros, como
citado anteriormente, transmitiu valores imperecíveis a crianças
e adultos. E não esperava em resposta que o adulássemos,
mas sim, que não o seguíssemos, como ele próprio diz:
“Temos que ser nós mesmos, apurar os nossos Eus (...), sob o risco
de não sermos coisa nenhuma” (34).
CITAÇÕES BIBLIOGRÁFICAS
1-PENTEADO, J. R. W.
Os Filhos de Lobato, p. XIV
2-LOBATO, Monteiro. A Barca
de Gleyre vol II , p.66
3-SILVA, F. A. História
do Brasil, p. 175
4-Ibidem, p. 176
5-Ibidem, p. 176
6-Ibidem, p. 204
7-AZEVEDO, C. L. de;
CAMARGOS, M.; SACHETTA,V. Furacão na Botocúndia,
p.31
8-Ibidem, p. 31
9-LOBATO, M. A Barca de Gleyre
vol I, p. 83
10-LOBATO, M. A Barca de Gleyre
vol II, p. 66
11-PENTEADO, J. R. W. Os Filhos
de Lobato, p. 44
12-LOBATO, M.A. Barca de Gleyre
vol I, p. 25
13-AZEVEDO, C. L. de; CAMARGOS,
M. ; SACHETTA, V. Furacão na Botocúndia,
p. 34
14-Ibidem, p. 34
15-SILVA, F. A. História
do Brasil, p. 207
16-AZEVEDO, C. L. de;
CAMARGOS, M.; SACHETTA,V. Furacão na Botocúndia,
p.124
17-SILVA, F. A. História
do Brasil, p.231
18-AZEVEDO, C.L.de; CAMARGOS,
M.; SACHETTA, V. Furacão na Botocúndia, p.184
19-Ibidem, p.224
21-SILVA, F. A. História
do Brasil, p.240
22-PENTEADO, J. R. W. Os Filhos
de Lobato, p.164
23-AZEVEDO, C.L. de; CAMARGOS,
M; , SACHETTA, V. Furacão na Botocúndia, p.305
24-AZEVEDO, C.L.de; CAMARGOS,
M.; SACHETTA, V. Furacão na Botocúndia, p.306
25-Ibidem, p.338
26-LOBATO, M. A Barca de Gleyre
vol II, p.361-363
27-MARANHÃO, R.;
ROCHA, R.; LAJOLO, M. Monteiro Lobato: literatura comentada,
p.198
28-LOBATO, M. A Barca de Gleyre
vol II, p.184
29-Ibidem, p. 36
30-Ibidem, p. 132
31-LOBATO, M. Cartas Escolhidas
vol I, p.125
32-Ibidem, p. 138
33-Ibidem, p. 167
34-LOBATO, M. A Barca de Gleyre
vol I, p.80-83
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1-AZEVEDO, C.
L. de; CAMARGOS, M.; SACCHETTA, V. Furacão na
Botocundia. 1. ed. São Paulo: Senac, 1997.
2-BARBOSA, A. O Ficcionista
Lobato. 1. ed. São Paulo: Brasiliense, 1996.
3-LOBATO, M.
A Barca de Gleyre. 2. ed. v. I. São Paulo: Brasiliense, 1948.
4-LOBATO, M.
A Barca de Gleyre. 2.ed. v. II. São Paulo: Brasiliense, 1948.
5-LOBATO, M.
A Literatura da Minarete. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1972.
6-LUZ, M. T.
A Arte de Curar x A Ciência das Doenças. São
Paulo: Dynamis, 1996.
7-MATOS, C. J.;
NUNES, C. A História do Brasil. São Paulo: Nova Cultural,
1994.
8-PENTEADO, J.
R. W. Os Filhos de Lobato. 1. ed. Rio de Janeiro: Dunya, 1997.
9-SILVA, F. de A. História
do Brasil. 1. ed. São Paulo: Moderna, 1937.
10-LOBATO, M.
Cartas Escolhidas vol I . 5. ed. São Paulo: Brasiliense, 1969
11-LOBATO, M. Cartas
Escolhidas vol II . 5. ed. São Paulo: Brasiliense, 1969
12-MARANHÃO,
R.; ROCHA, R.; LAJOLO, M. Monteiro Lobato: literatura
comentada. 1. ed. São Paulo: Abril, 1981