Monteiro Lobato e a Homeopatia

Fabiana Cardoso Tardelli*
*Médica homeopata pelo IHFL



INTRODUÇÃO

        Monteiro Lobato foi um intelectual militante, sempre buscando, através de inúmeros livros e artigos nos principais jornais da época, manter seus leitores claramente conscientes dos problemas do nosso país. Travava uma luta quixotesca pelos seus ideais de igualdade social, liberdade de expressão e justiça, desejando-os presentes em um novo Brasil, desenvolvido e saneado da corrupção e burocracia reinantes. Buscando soluções para transformar a realidade política, econômica e cultural do país, segundo sua visão pragmática, conseguiu influenciar milhões de brasileiros.
        Qual a extensão da influência do conjunto de sua obra na formação de opiniões e atitudes?
        Analisando esta questão, diversos autores que estudaram o processo através do qual os indivíduos de uma geração adquirem os elementos de conhecimento e de comportamento das gerações anteriores, concluíram que o processo inicia-se na infância e inclui, principalmente as influências do meio familiar, do grupo e de agentes externos, tais como a mídia (impressa e eletrônica) e outros. José Roberto Whitaker Penteado entrevistou um grupo de adultos, leitores de Lobato durante a infância para determinar essa influência. Pesquisando assuntos pré-determinados, como religião, família, governo e outros, concluiu que não há uma interpretação unívoca das fábulas lobatianas, mas, mesmo assim os leitores “observam valores que opõem a cooperação ao egocentrismo, a aceitação das diferenças à intolerância, a religiosidade ao sectarismo, o progresso ao apego rígido ao passado. Sobretudo, há o reconhecimento de que a leitura de Lobato contribuiu para o desenvolvimento da curiosidade, do espírito crítico e  da negação da autoridade repressora”(1).
        Se, mesmo no universo de suas obras infantis, foi possível detectar influências posteriores na formação dos conceitos, idéias e visão de mundo dos adultos, as suas obras para o público adulto, certamente conquistaram a mesma importância transformadora.
        Em relação à medicina homeopática, ou qualquer outro valor ou idéia por nós adotados, e que não represente a escolha respaldada pela maioria da sociedade, sempre haverá, nessa atitude de coragem e espírito crítico a identificação com o ideal lobatiano que ele próprio extraiu de Nietzsche: “Queres seguir-me? Segue-te!”(2).
        Quantos não teriam experimentado a nova arte de curar encorajados pelos seus depoimentos? O próprio Monteiro Lobato, em correspondência a Paulo Dantas, especula sobre o êxito de sua faceta de “propagandista”, concluindo que sua eficácia nessa área, seria resultado da força emanada das suas absolutas convicções pessoais.
        Mesmo para os homeopatas convictos, o relato  de seus  primeiros contatos com a homeopatia e o conhecimento mais detalhado sobre a vida e obra de tão genial e assustadoramente atual figura humana, somente intensifica o orgulho de possuir em nossas fileiras, tão enaltecedora companhia.

OBJETIVO

        O trabalho pretende demonstrar o papel preponderante de Monteiro Lobato na história do país, através de seu trabalho como escritor, advogado, empresário, editor, jornalista, crítico de artes, adido comercial  e fazendeiro, tendo sido pioneiro e fiel aos seus princípios em todas essas áreas.
        Seu primeiro contato e as referências à homeopatia presentes em sua obra serão descritos no trabalho.
        Um breve resumo da história da homeopatia no Brasil foi incluído para que fosse possível compreendê-la melhor frente ao contexto histórico e  também  situá-la face  à  vida de Lobato.

MATERIAL  E  MÉTODO

        Para a realização do objetivo do trabalho foram pesquisadas biografias sobre o autor, assim como obras sobre a história do Brasil e do mundo.Também foram consultadas obras sobre história da homeopatia .
         As cartas publicadas de Monteiro Lobato foram analisadas à procura de referências à homeopatia (nas obras: A Barca de Gleyre volumes I e II , Cartas Escolhidas volumes I e II).
        A pesquisadora e amiga do escritor paulista, Hilda Villela Mertz, relatou e confirmou dados sobre a sua biografia e obra.

 MONTEIRO LOBATO: O CONTEXTO HISTÓRICO DE SUA VIDA

         Monteiro Lobato nasceu em 1882 na cidade de Taubaté, pacata cidade do interior paulista que vivia sob a influência da economia cafeeira. Neto do Visconde de Tremembé, membro de destaque da oligarquia rural, Lobato, durante sua vida, presenciaria profundas mudanças na história de seu país.
        Quando começou o século XX, o mundo ocidental atravessava uma época de paz entre as nações da Europa. O capitalismo monopolista vinha, desde a segunda metade do século XIX, substituindo o livre comércio e fez surgir o imperialismo, em resposta à necessidade de obter matérias-primas baratas de regiões pobres. A maior potência dessa fase neocolonialista passou a ser da Inglaterra.
        A monarquia brasileira, na segunda metade do século XIX, era uma exceção, dentro do contexto político das Américas republicanas.
        “Instituída em 1822 como modelo político capaz de manter intocável o latifúndio escravista e preservar os privilégios da elite rural, a monarquia brasileira, a partir de 1870 tornava público seu anacronismo e incapacidade de acompanhar a evolução que se processava no país. O governo imperial, instituído nos anos 20, mostrava-se obsoleto e incapaz de atender as novas aspirações de uma sociedade que se transformava e modernizava” (3).
        O Brasil conquistara a independência política, mas esta não se estendeu ao âmbito econômico, no qual nos submetíamos aos interesse da Inglaterra, que reservara ao nosso país a função de agroexportador, assim como de consumidor de seus produtos industrializados.
        A sociedade brasileira no século XIX , acompanhando a estrutura econômica que se mantivera inalterada, permanecia aristocrática, agrária, escravista, pouco urbanizada e regida pelas mesmas tradições do Brasil-colônia.
        Apenas na segunda metade do séc. XIX, o Brasil conseguiu se libertar da crise econômica herdada do primeiro Reinado, possibilitando um processo de modernização e urbanização. Os meios de transportes e comunicações desenvolveram-se e ampliou-se o sistema de crédito, através dos bancos e companhias de investimentos.
        O grande responsável por essas modificações foi o café, cujas exportações aumentaram de pouco mais de três milhões de sacas na terceira década do século XIX, para aproximadamente cinqüenta e um milhões de sacas no final do mesmo século. O consumo de café firmava-se na Europa e nos Estados Unidos.
        Paralelamente ao apogeu  do café, ocorria o  declínio das culturas de cana-de-açúcar, algodão e tabaco. Portanto, o eixo econômico do Brasil deslocava-se das regiões norte e nordeste   para as novas regiões economicamente dominantes do centro-sul. “A nova elite cafeeira do oeste paulista, ao desenvolver uma mentalidade empresarial moderna, contrapunha-se à tradicional elite agrária açucareira do nordeste e à cafeeira fluminense e valeparaibana apegadas ao conservadorismo” (4).
        Entretanto, apesar de ser detentora do poder econômico, a aristocracia cafeeira paulista não tinha representação política condizente com a  sua situação. O governo imperial também, não destinava ao governo de São Paulo grande apoio financeiro. Devido a essa situação, a nova aristocracia paulista criticava o poder centralizado do  império e  apoiava as manifestações liberais e modernizantes, tanto do ponto de vista social quanto político.
        As novas propostas eram lideradas por uma jovem ala política formada pela Academia de Direito do Largo São Francisco. “Para os aristocratas de São Paulo o governo central tinha de atender as necessidades da lavoura cafeeira em expansão, incrementar a imigração, acabar com a escravidão e financiar alguns empreendimentos paulistas, como a construção de ferrovias, etc.”(5) A escravidão retardava a expansão cafeeira, limitando a mão de obra disponível.
        As camadas médias urbanas compostas por profissionais liberais, artesãos, comerciantes, intelectuais, militares, embora não possuíssem reivindicações próprias, engajavam-se fervorosamente  nas campanhas abolicionista e republicana.
        Desde 1810 a Inglaterra pressionava fortemente o Brasil a extinguir a escravatura, porém o Império mantinha-se dúbio, aprovava as leis mas não as aplicava com rigor. Em protesto,  os ingleses decretaram, em 1845, o tratado de Bill Aberdeen, que autorizava a perseguição e apreensão de navios negreiros a nível mundial e seu ulterior julgamento em cortes inglesas.A
abolição da escravatura acarretaria grande liberação de capital dos fazendeiros, que poderia ser empregado na compra de manufaturados ingleses. O trabalho assalariado também ampliaria o mercado consumidor, assim como  promoveria a equiparação dos custos de produção dos produtos brasileiros aos dos ingleses.
         O governo brasileiro foi obrigado a ceder, através da lei Eusébio de Queiroz, proibindo definitivamente o tráfego negreiro no país a partir de sua promulgação, em 1850. As oligarquias nordestinas e as do Vale do Paraíba e Baixada Fluminense julgaram-se prejudicadas por essa medida.
        Depois de 1850, a campanha abolicionista sofreu a adesão de outros setores da sociedade: imprensa, parlamentares, artistas e intelectuais.
        A Guerra do Paraguai (1864-1870) foi, em grande parte, estimulada pela Inglaterra, a qual temia que o exacerbado nacionalismo e a pretensão imperialista do Paraguai, comandado por Solano Lopez, fossem imitados pelo Brasil e Argentina. Mesmo tendo saído vitorioso, o Brasil sofreu grandes revezes: morreram milhares de brasileiros e a Guerra nos tornou mais endividados e dependentes dos ingleses.
        O exército brasileiro, fortalecido com a vitória, não mais aceitaria um papel secundário no cenário político nacional e não mais admitiria o império escravista. Adotaram as idéias positivistas de Augusto Comte, pregando serem somente a ordem e a ciência capazes de propiciar o desenvolvimento do país. E apenas o exército estaria apto a atender esses pré-requisitos e alavancar o progresso do país.
        Com a extinção do tráfico negreiro e, posteriormente, da escravidão (1888), associados à promulgação da Tarifa Alves Branco (1844), que sobretaxava os produtos importados (tarifa maior para os produtos com similares nacionais), a indústria brasileira conheceu seu primeiro surto de desenvolvimento.
        Em 1870, ocorreria um novo surto industrial, só que, desta vez, proporcionado pelo excedente de capital do setor cafeeiro e pelo desenvolvimento do mercado consumidor interno, ampliado graças à imigração.
        Entre os empresários da segunda metade do século XIX, destacou-se a figura do Barão de Mauá, responsável por grandes empreendimentos como: Estabelecimento de Fundição e Companhia Estaleira da Ponta da Areia (Rio de Janeiro, 1847); Companhia Fluminense de Transportes (1852); Companhia de Iluminação a Gás do Rio de Janeiro (1854); Estradas de Ferro; a primeira linha de bondes do Rio de Janeiro e redes bancárias com filiais na Inglaterra, EUA, França, Argentina e Uruguai.
        Porém, a partir de 1860 a era Mauá inicia seu declínio,  provocado pela queda das tarifas alfandegárias (por pressão externa)  e vitimado por sabotagens (destruição de moldes e modelos de construção naval) e incêndios criminosos. O governo imperial também não o apoiava por suas posições liberais, abolicionistas e contrárias à Guerra do Paraguai.
        Os grupos ligados à incipiente indústria brasileira redigiram  um manifesto,  afirmando que o país só se constituiria em nação estável e justa, quando se libertasse dos moldes agroexportadores e desenvolvesse a indústria.
        A submissão total do clero católico ao imperador, através dos mecanismos do padroado (intervenção do governo na nomeação para cargos importantes da igreja) e do beneplácito (impunha a necessidade do consentimento real para vigorarem as ordens do Vaticano) determinou mais uma força contrária ao Império.
        Após o término da Guerra contra o Paraguai (1864-1870), o movimento republicano se fortalece  e lança o manifesto republicano assinado por Quintino Bocaiúva, Saldanha Marinho, Rangel Pestana  e outros, protestando contra a escravidão, a ligação do Estado com o clero, o poder moderador, o senado vitalício e as desigualdades sócio-econômicas. É criado, três anos após tal manifesto, o Partido Republicano Paulista, apoiado pela elite cafeeira paulista e contando com adeptos em Minas Gerais, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.
        Verifica-se, então, que a república era um desejo coletivo, capaz de unir, sob o mesmo ideal as classes médias com seus segmentos mais importantes – o clero e o exército – ,aristocratas anti-escravistas e conhecidos escravocratas, descontentes com a abolição efetuada sem o pagamento de indenizações.
        Portanto, a crise do império e a conseqüente  proclamação da República foram decorrências diretas das transformações sócio-econômicas ocorridas na segunda metade do século XIX. Assim, sem lutas e sem a participação popular, foi proclamada a República, em 15 de novembro de 1889.
        Contudo, modificou-se a bandeira nacional, promulgou-se uma nova constituição, separou-se a Igreja do Estado, porém as desigualdades sócio-econômicas foram mantidas.
        Foi  nesse contexto histórico que Monteiro Lobato aprendeu as primeiras letras com a mãe, Olímpia  Augusta Monteiro Lobato, filha legitimada  do Visconde de Tremembé com Anacleta do Amor Divino, humilde professora primária.
        A família do escritor pertencia à longa linhagem de latifundiários, porém já vivia o início da decadência econômica do Vale do Paraíba. Seu avô, contudo, mantinha relações pessoais importantes, tendo hospedado o próprio imperador em sua fazenda, o que  proporcionou ao menino Lobato, seu primeiro contato com o poder.
        Prossegue seus estudos com um professor particular e, posteriormente,  freqüenta  vários colégios de Taubaté. Entre estes,  incluiu-se o Colégio Paulista, de orientação positivista, ideologia esta que, como citado anteriormente, encontrou muitos adeptos entre os jovens oficiais militares e adeptos do ideal republicano.
        Durante o período inicial da República, o positivismo e o liberalismo representavam as duas grandes vertentes do pensamento político vigente no país. Tal período também foi marcado por grande movimentação de idéias, em geral, importadas da Europa e muitas vezes mal compreendidas, absorvidas de modo parcial e seletivo, gerando grande confusão ideológica.
        A teoria da evolução das espécies descrita por Darwin revolucionava o pensamento mundial  contemporâneo, influenciando, inclusive, as elites brasileiras.
        A posse de uma bengala com as iniciais paternas J. B. M. L. gravadas, faz com que Lobato altere seu nome para José Bento Monteiro Lobato, o qual manteria durante toda a sua vida.
        Aos treze anos (1895), muda-se para São Paulo, ficando interno no Instituto de Ciências e Letras, onde, por ironia do destino, é reprovado no exame de português.
        Na esfera política, é proclamada a República, em 15 de novembro de 1889, pelo Marechal Deodoro da Fonseca, o qual institui e preside o governo provisório.
        Atingido o objetivo comum que os unira - militares e a aristocracia cafeeira - no mesmo ideal republicano, surgem as divergências sobre o modelo de regime a ser adotado.
        Os militares, imbuídos da concepção positivista de ordem e progresso, desejavam um governo ditatorial centralizado, assim como reformas políticas e econômicas que favorecessem a classe média, à qual pertencia grande contigente de militares.
À oligarquia cafeeira interessava a República Federativa, que lhe proporcionaria maior controle dos governos estaduais, garantindo a manutenção da política favorável à maior rentabilidade do café.
        Rui Barbosa, o primeiro ministro da fazenda do período republicano, aumentou a emissão de papel moeda e facilitou o crédito, visando incrementar a industrialização do país e, conseqüentemente, seu desenvolvimento. A enorme quantidade de dinheiro emitida sem equivalência com a produção real da economia (sem lastro ouro) gerou grave crise inflacionária e especulativa (que ficou conhecida como Encilhamento).
        A aristocracia cafeeira, contrária a qualquer política que não priorizasse a lavoura, retirou  seu apoio, provocando a   renúncia  do ministro da fazenda, em janeiro de 1891.
        A primeira constituição republicana determinava a adoção da forma federativa, do regime presidencialista e garantia o voto aberto aos homens maiores de 21 anos, excetuando-se os analfabetos, mendigos, soldados e religiosos. No dia seguinte à sua promulgação, o Marechal Deodoro da Fonseca é eleito primeiro Presidente da República, com a ameaça de usar a força das armas caso perdesse a disputa.
        A primeira revolta da armada (1891), chefiada por Custódio de Melo, ameaçou bombardear o Rio de Janeiro, após assumir o controle de encouraçados e torpedeiros. O autoritarismo do Marechal Deodoro, assim como a descoberta de negócios escusos, realizados por integrantes do seu governo, e o fechamento do Congresso Nacional provocaram a revolta que obrigou o presidente a renunciar. No mesmo dia, assume a presidência da República Floriano Peixoto, cujo governo, respaldado pela oligarquia cafeeira, pelas camadas médias urbanas  às quais pertencia e pela ala militar florianista, consolidou o novo regime através de um executivo forte e um autoritarismo por vezes superior ao de Deodoro.
        A vitória de Prudente de Moraes nas eleições de 1894 representou o término da República da Espada  e o início da Repüblica Oligárquica, onde a elite cafeeira, já detentora do poder econômico, assume  também o poder político efetivo na esfera federal.
        O coronelismo, sistema de dominação política e de controle das eleições e dos votos da massa (voto de cabresto) assegurariam  a manutenção da estrutura econômica.
        Prudente de Moraes, o primeiro presidente das oligarquias, enfrentou a crise da superprodução do café, cujo preço e volume de vendas despencaram nos mercados internacionais. A inflação crescia e o poder aquisitivo do povo era sensivelmente reduzido. No seu mandato, a miséria nordestina, agravada pela grande seca iniciada em 1877, impossibilitou os “coronéis” nordestinos de manter, mesmo em regime de semi-escravidão, a massa de sertanejos que vivia nos seus latifúndios improdutivos. Tal situação provocou o êxodo para as lavouras cafeeiras paulistas ou para a Amazônia, onde ocorria o ciclo da borracha. Os sertanejos que não imigraram, ou formavam bandos de cangaceiros nos quais davam vazão à sua revolta, ou se agrupavam em torno de um líder religioso.
        “Foi neste contexto que surgiu (...) Antônio Alves Conselheiro, o maior líder sertanejo do Brasil e comandante do maior e mais importante movimento camponês de  luta pela posse da terra e de resistência à opressão dos latifundiários da história brasileira: a Guerra de Canudos (1896-1897)”.(6)
        A cidade “santa” de Belo Monte (1893), comunidade igualitária, refúgio dos famintos, tinha em Antônio Conselheiro seu líder político e religioso. A reação do governo, dos fazendeiros e mesmo da Igreja não se fez esperar...
        Após resistir às investidas do exército brasileiro em três ocasiões, Canudos, que chegou a reunir 30.000 habitantes, é vencida pela quarta expedição militar, composta por 5.000 soldados, em outubro de 1897.
        No ano seguinte, 1898, Monteiro Lobato fica órfão e, desistindo do seu sonho inicial de ser pintor, acata a determinação de seu avô e tutor, iniciando o curso de Direito na respeitada Faculdade de Direito do Largo São Francisco.
       No país dos bacharéis, como era chamado o Brasil desse período, o diploma de  médico, engenheiro ou advogado era a via de ascensão social mais segura, permitindo a admissão nas esferas institucionais da República, mesmo se o certificado ficasse relegado a mero adorno. Como escreveria Lobato, no artigo intitulado “A doutorice”, os brasileiros afastavam-se das profissões manuais, da indústria e do comércio, cedendo espaço aos imigrantes que já eram donos de 70% das indústrias paulistas.
        Culturalmente, nesses primeiros anos da República, continuávamos a eleger Paris como modelo ideal a ser seguido no comportamento, na moda e nas artes. O Rio de Janeiro, apesar de ser o centro político e cultural do país, mantinha-se sem rede de esgotos e com fornecimento de água bastante precário. O lixo invadia-lhe as ruas, becos e cortiços, sendo que as epidemias eram parte dessa triste realidade: cólera, tifo, tuberculose e febre amarela.
        A cidade de São Paulo começava também a deixar de ser uma pequena cidade do interior brasileiro, que fora durante três séculos e meio, onde uma carta prescindia do endereço do destinatário para ser recebida (mesmo próximo à virada do século). A cidade cresceria e se urbanizaria nos primeiros decênios do século XX. Em 1900, havia na cidade 240.000 habitantes, incluindo um grande contigente de imigrantes, os quais, juntamente com os ricos fazendeiros que lá se instalaram, a transformaram na segunda cidade mais populosa do país.
        Até 1907, o Rio de Janeiro liderou a produção manufatureira, sendo superado em 1920 pela cidade paulista, que detinha 31,5% da produção do país. O futebol, introduzido no país por Charles Müller, em 1894, ganha seu primeiro grande estádio em 1919 (para 18.000 torcedores), tornando-se o grande lazer das massas.
         As elites cariocas mantinham-se entretidas em saraus à francesa, porém  o samba   já estava surgindo nos morros.
 Já nesse século, iniciando o processo de autoconhecimento e auto-expressão, são publicados: “Os Sertões” de Euclides da Cunha, contando a saga de Canudos, e “Canaã” de Graça Aranha, descrevendo os primeiros contatos de imigrantes alemães com o sertão do Espírito Santo.
        Santos Dumont, em 1906, voou pela primeira vez, na cidade de Paris, em um aparelho mais pesado que o ar.
        Esboçam-se as primeiras organizações em defesa do proletariado. O socialismo funda, em 1902, o Partido Socialista do Brasil, o qual, apesar de sua duração efêmera, exerceu importante papel no esclarecimento das massas. Como movimento ideológico é suplantado, entretanto, pelo anarquismo trazido pelos imigrantes espanhóis e italianos que defendia a substituição da autoridade do Estado, por formas de cooperação entre os indivíduos.
        A burguesia industrial incipiente desejava o saneamento moral da República e o buscava através de ligas e partidos da mocidade. A Liga de Defesa Nacional, fundada pelo poeta positivista Olavo Bilac, defendia a ordem, a disciplina, a dignidade patriótica  o serviço militar obrigatório. A igreja católica tentava, através dos colégios para leigos, readquirir influência sobre as mentes das classes dominantes, moldando-as durante o processo educacional.
        Freqüentando a Faculdade de Direito, o já inconformado Lobato criticava o ambiente universitário por não mais ser  tão politicamente engajado, como na geração anterior, quando Rui Barbosa, Castro Alves, José Bonifácio e outros a elevaram a reduto da intelectualidade vanguardista, influindo decisivamente para a concretização dos ideais republicanos e absolutistas. Iniciava, nesse momento, sua participação nas decisões político-sociais do país, um ensaio para as decisivas participações futuras. Escreve assiduamente para jornais estudantis, debatendo os mesmos assuntos exaustivamente comentados nas mesas do café Guarani (reduto da boemia paulistana): literatura, artes plásticas, teatro, música e política. Em concurso literário realizado pelo centro acadêmico em 1904, recebe o primeiro lugar com o conto “Gente aborrecida” (“Gens ennuyeux”, como constava no original).
        Do corpo docente da Faculdade, fartamente retratado nas caricaturas de Lobato, destacam-se, pela admiração que conquistaram, Pedro Lessa e Almeida Nogueira.
        Almeida Nogueira, autêntico representante do patriciado agrícola, professor de economia política e finanças, era adepto da não-intervenção do Estado na economia (liberalismo) e, provavelmente estimulou em Lobato o interesse pelos empreendimentos comerciais. Já Pedro Lessa, jurista e magistrado, “defensor da liberdade de pensamento e expressão como indispensável à dignidade humana (...)” (7), representou uma influência fecunda e marcante  na formação intelectual de Lobato.. Segundo Lessa “o Homem só se deve render a argumentos e convicções próprias, nunca a injunções alheias”(8). Procurava também incutir ideais de justiça e civismo nos seus alunos.
        Lobato, em carta de 1903 a Rangel demonstra ter compreendido a lição: “Você me pede um conselho e atrevidamente eu dou o grande conselho: seja você mesmo, porque ou somos nós mesmos ou não somos coisa nenhuma, e para ser si mesmo é preciso um trabalho de mouro e uma vigilância incessante na defesa, porque tudo conspira para que sejamos meros números, carneiros dos vários rebanhos (...). Há no mundo o ódio à exceção e ser si mesmo é a exceção”(9). Como ensinara-lhe Nietzsche, principal ponto de referência do universo lobatiano: “Queres seguir-me, segue-te”(10)
Segundo José Roberto W. Penteado “os mestres da Faculdade de Direito compartilhavam de uma visão progressista do mundo, positivista e cientificista spenceriana”(11).
        Monteiro Lobato intitulava-se socialista ao entrar na faculdade, tendo, inclusive, discursado na defesa dos ideais de justiça, igualdade social e liberdade; logo, porém,  irá interessar-se pelo anarquismo originário dos imigrantes italianos. Participa moderadamente da política estudantil e dedica à faculdade  apenas as “quireras” de tempo necessárias à sua aprovação.
        Para espantar o tédio, muitos estudantes formavam grupos à parte, onde as afinidades mentais e  ideais semelhantes cimentavam sólidas amizades. O grupo de Lobato se denominava “Cenáculo” .
        Aos colegas do Cenáculo, aos livros e às discussões literárias rendia-se totalmente, incendiado por sua fervorosa verve de escritor. Continuava se deliciando, como quando criança na biblioteca do avô, em intermináveis leituras: Daudet, Voltaire, Emile Zola, Fichte,  Eça de Queiroz, Spinoza, Spencer, Darwin, Machado de Assis e especialmente Nietzsche. A “misteriosa afinidade mental”(12) que unia os cenaculóides, nem todos egressos do Largo São Francisco, faria eclodir uma amizade duradoura e profunda entre os seus agregados. A afinidade consistia num vago socialismo somado a um imenso amor à arte.
O cenáculo “ia reformar o mundo, notificar as leis do universo. Uma arte nova ia surgir, uma ciência e uma filosofia inéditas”(13). O próprio grupo assim caracterizava seus integrantes:  “o poeta chamava-se Ricardo Gonçalves, o filósofo, Albino Camargo, o diletante, Cândido Negreiros, a alma, Raul de Freitas, o talento, Godofredo Rangel, o jornalista, Tito Lívio, o orador, Lino Moreira; agregaram-se posteriormente um espírita, Júlio Costa, e um místico, João Antônio Nogueira”(14).
Apesar de não terem concretizado a almejada utopia de reformar o mundo, quase todos os integrantes do grupo conseguiram espaço para escrever, assiduamente, nos jornais da cidade de São Paulo e do interior paulista. No Minarete, eram publicadas colaborações tão ousadas que a devolução motivada pela indignação dos leitores não era incomum. As matérias denunciavam as mazelas do prefeito e também, traziam inúmeros artigos jocosos que só os membros do grupo entendiam (segundo Lobato, ao escrever, eles já suprimiam os trechos que os leitores costumavam pular durante a leitura). O Cenáculo será sempre recordado com nostalgia e reverência, na longa correspondência que manterá com Godofredo Rangel,  posteriormente, publicada sob o título “A Barca de Gleyre”. Nestas são revelandos cerca de quarenta anos de mútuas confidências, elogios e discussões literárias.
        Na política brasileira, Campos Salles (1898-1902) sucedia a Prudente de Moraes, herdando um país endividado, pressionado pelos credores estrangeiros e com sua fonte primordial de dividendos, o café, sofrendo quedas vertiginosas na sua cotação. O novo presidente acreditava na vocação agrária do nosso país.
        Para compensar a redução no preço do café promove a desvalorização da nossa moeda, socializando as perdas ou seja, reduzindo os prejuízos dos latifundiários exportadores. “Era extremamente preocupante a situação financeira do país. A inflação galopante, a crise cafeeira e a queda vertiginosa da moeda caracterizavam o estado de semifalência por que passara a nação e impossibilitavam o pagamento dos juros ou a amortização da divida externa”(15).
        Negociando com os banqueiros ingleses, Campos Salles formou o “Funding Loan”. Este acordo determinava a suspensão, por três anos, do pagamento dos juros; obtenção de novos empréstimos e dilatação do prazo para iniciar a amortização da dívida, que deveria ser saldada em até sessenta e três anos.
        Para sanear as finanças foram adotadas medidas drásticas: redução do crédito, aumento dos impostos e congelamento dos salários, gerando recessão, desemprego e desaceleração do processo de industrialização.
        A popularidade do presidente despencava vertiginosamente e as greves se multiplicavam, forçando o governo a criar a política dos governadores. Esse acordo significava troca mútua de apoio e favores, entre o governo federal e os governadores estaduais. Foi criada, pelos mesmos motivos, a Comissão Verificadora de Poderes, que só confirmava a eleição dos deputados vinculados às oligarquias dominantes, garantindo, assim, a hegemonia política e a docilidade do Congresso Nacional.
        O domínio político exercido pelas oligarquias de São Paulo e Minas Gerais a nível nacional, ficou conhecido como a política do “Café com Leite”.
        Rodrigues Alves é eleito em 1902 para governar um país recuperado financeiramente pelo “Funding Loan”. Finalmente, o país pôde retomar o seu desenvolvimento: saneamento básico, novos portos, construção da estrada de ferro Madeira-Mamoré e melhoria das antigas ferrovias, construção do Instituto de Manguinhos, etc.
        A urbanização do Rio de Janeiro e o combate às doenças infecto-contagiosas foram seus atos mais louváveis. Porém, para transformar o Rio de Janeiro em uma cidade saneada e remodelada, as classes baixa e média-baixa foram desalojadas do centro, refugiando-se, então, nos morros e na periferia.
        O sanitarista Oswaldo Cruz, diretor da Saúde Pública (1903), responsável pelo sucesso do saneamento, foi obrigado a impor a vacinação contra varíola para controlá-la.
        A população rebela-se contra os sacrifícios impostos pelo saneamento e contra a obrigatoriedade da vacina. A revolta popular, seguida de uma rebelião militar oportunística, causaram muitas mortes na tentativa de derrubar o presidente. O episódio ficou conhecido como a Revolta da Vacina.
        Taubaté acolhe, em dezembro de 1904, o neto do Visconde de Tremembé, seu mais novo bacharel em ciências jurídicas, com grandes festejos regados a discursos e foguetes. A vida pacata do interior, onde um homem só é considerado gentil e educado, segundo Lobato, quando se confunde com todos os outros, provoca um misto de tédio e irritação. Desagradam-no, sobretudo, as adulações e a saudade dos amigos, obrigando-o a se refugiar nos livros e nas cartas para Rangel. Poucos meses depois, porém, conhece sua futura esposa, D. Maria Pureza e é indicado,  através da influência decisiva de seu avô, para o cargo de promotor público da comarca de Areias. Assume o cargo em junho de 1907, porém a “matutez” dos jurados e os poucos conhecimentos jurídicos dos demais bacharéis, aprofundam a indiferença de Lobato em relação à advocacia.
        Casa-se com Purezinha em 28 de março de 1908.
        Machado de Assis, Homero, Camilo Castelo Branco e uma assinatura do jornal inglês “Weekly  Times” salvam o escritor da anêmica vida areense. Pretendendo melhorar as finanças, traduz artigos do “Weekly Times” para o jornal paulista O Estado de São Paulo e colabora com desenhos e matérias para diversos jornais.
        Em 1909,  envolve-se na campanha civilista, apoiando Rui Barbosa contra o Marechal Hermes da Fonseca. O movimento defendia a moralização político-eleitoral e o afastamento dos militares da política nacional. O Marechal Hermes sai vitorioso graças à fraude eleitoral, provando que os objetivos de Rui demorariam a ser concretizados.
        A vitória de Marechal Hermes aboliu a política do “Café com leite”, cuja continuidade exigia a eleição do candidato paulista Davi Campista. O novo presidente tinha o apoio das oligarquias mineira e gaúcha e a oposição das oligarquias paulista e baiana. A instabilidade política agravou ainda mais nossa situação financeira e um novo “Funding Loan” teve que ser negociado.
        O Visconde de Tremembé falece em 27 de março de 1911, deixando de herança para os netos a fazenda Buquira. Lobato muda-se para a propriedade com a família: a esposa e os filhos Marta e Edgard.
        O espírito crítico e empreendedor do escritor procura modernizar a fazenda, porém esbarra na figura atrasada e indolente do caboclo. Lobato espanta-se com o desrespeito que esses “piolhos” demostram para com a natureza, da qual são totalmente dependentes. As queimadas e a destruição da cobertura vegetal vão exaurindo o solo, que não responderá mais com a mesma generosidade ao capital e esforços nele investidos.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                           Critica o governo por não incentivar um uso mais racional e conseqüente da terra, através de uma campanha nacional de esclarecimento. Engajando-se na defesa de uma agricultura moderna, escreve para a seção de cartas do jornal O Estado de São Paulo. O seu artigo é publicado, com destaque, sob o título “Uma velha praga”, em novembro de 1914, obtendo grande repercussão.
A crítica ao caboclo inconseqüente, preguiçoso e ignorante se aprofunda, e Lobato personifica-o na figura de Jeca Tatu. A sua visão do caboclo contraria totalmente a imagem do “bom selvagem” que havia herdado dos índios heróicos de José de Alencar.
Segundo Lobato, seria suficiente  apenas uma breve experiência como administrador de fazendas para corrigir a imagem errônea. O sucesso obtido com “A Velha Praga” e “Urupês” (título do conto onde nasce Jeca Tatu) abre-lhe as portas de inúmeras redações e editoras.
O cenário mundial, porém, está cada vez mais sombrio. A I Guerra Mundial é deflagrada em 1914, enquanto Lobato travava sua guerra particular contra a ignorância dos caboclos e a omissão governamental. O neo-imperialismo das nações européias, que pretendiam repartir o mundo, cada qual em seu próprio proveito, conduziu ao conflito mundial. A vitória coube ao bloco liderado pela Inglaterra, França e aliados;  a derrota foi impingida ao grupo liderado pela Alemanha que teve que aceitar a cobrança de pesadas indenizações e ceder regiões do seu território.
Em fevereiro de 1917, o czar da Rússia foi deposto por uma revolução popular. Inicialmente, o poder ficou na mão dos burgueses, mas o proletariado, liderado por Lênin assume o comando. Unida a diversos países eslavos, a Rússia passou a se denominar União das Repúblicas Soviéticas.
Os Estados Unidos da  América do Norte, minimamente afetados pela guerra, emergem como potência mundial, substituindo a Europa. O Brasil também é favorecido, recebendo estímulos para incrementar a industrialização e acelerar o processo de urbanização. As exportações de gêneros agrícolas são impulsionadas pela desorganização da Europa, ajudando o governo de Venceslau Brás, presidente do Brasil no período de 1914-1918, a se recuperar da queda no saldo das exportações cafeeiras e da desvalorização da nossa moeda.
Em 1917, Lobato consegue vender a fazenda Buquira e transfere-se para São Paulo. Se o período de seis anos (1911-1917), no qual residiu na fazenda, foi escasso em produção literária, a mudança para a capital iniciava uma época profícua em obras: o Saci-Pererê, Urupês e Problema Vital são publicados no mesmo ano. O primeiro discute nosso desenraizamento cultural, tentando contrapor alguma brasilidade ao afrancesamento de nossa cultura. Urupês nos apresentou ao Jeca Tatu; contudo, no livro “Problema Vital”, Lobato se desculpa com o nosso caboclo, porque chega à conclusão de que dois terços da nossa população está doente. Portanto, Jeca Tatu não é assim; está assim porque se encontra doente. E Monteiro Lobato entrega-se, de corpo e alma, à batalha sanitarista, associado a Belisário Pena e Artur Neiva.
Urupês, citado por Rui Barbosa no seu discurso realizado a 20 de março de 1919 no teatro do Rio de Janeiro, tem suas vendas multiplicadas. E  a referência a Jeca Tatu projeta a nível nacional  o seu autor e também alavanca-o a analista social respeitado.
A Revista  Brasil é adquirida por Lobato em 1918, dando início à sua participação no cenário nacional também como editor. As características que a fizeram uma publicação prestigiada e valorizada pela nossa elite intelectual foram: seu conteúdo nacionalista, a veiculação de informações sobre os prós e os contras do regime comunista e o espaço cedido ao movimento modernista. A editora da Revista Brasil prestigia jovens talentos nacionais e publica traduções das obras de Henry Ford, muito admirado por Lobato, pelo seu pragmatismo e métodos de gerenciamento .
Na redação da Revista Brasil reunia-se a elite cultural para discutir política, filosofia, artes e os assuntos do dia no país e no mundo. Os autores publicados, especialmente os modernistas estreantes, dificilmente o teriam conseguido em outra editora. Segundo Lobato, naquele tempo “para alguém editar um livro tinha que possuir uma destas qualidades: ser rico, ter prestígio junto a um medalhão, ou ser filho de pai ilustre”(16). Sua editora diferenciou-se, também, por adotar novas estratégias de divulgação e vendas, que atingiam toda nossa extensão territorial.
A partir de 1918, a burguesia industrial, a classe média e o operariado, beneficiados pelo incentivo que a I Guerra Mundial proporcionou à industrialização e à urbanização, recomeçaram a contestar o poder das oligarquias dominantes. Esses novos grupos sociais sentiam-se prejudicados pela administração pública e se irritavam com a  corrupção desenfreada, a fraude nas eleições e a política econômica do governo.
A burguesia industrial exigia mais financiamento e novas medidas protecionistas. A classe média urbana, aspirando participar do poder, lutava contra o coronelismo e a política dos governadores, que lhes tiravam as possibilidades de vitória nas eleições. Reivindicavam a moralização nas eleições, as reformas eleitorais e o voto secreto.
A classe operária, que já vinha se organizando desde as últimas décadas do século XIX em
sindicatos, partidos políticos e organizações operárias de defesa dos seus direitos, passou a sofrer influências dos movimentos operários europeus. Os imigrantes italianos e espanhóis eram  os principais líderes desses movimentos.
A burguesia industrial e as elites políticas consideravam os movimentos operários como ocorrências policiais a serem reprimidas com violência.
A primeira Greve Geral ocorreu em 1917, como conseqüência da I Guerra Mundial, que estimulou o crescimento industrial, mas, em contrapartida, elevou assustadoramente os preços. Clamavam também por melhores condições de trabalho.
O Partido Comunista do Brasil é fundado em março de 1922 e, após dois anos, tem que sobreviver na clandestinidade.
Os militares de baixa patente, descontentes com as instituições corruptas da República Oligárquica e com o discreto poder político que detinham, iniciaram um movimento armado para derrubar o governo. Esse movimento autoritário, elitista e centralista ficou conhecido como Tenentismo.
Inseridas nesse contexto de rompimento com o passado através de profundas transformações políticas, econômicas e culturais decorrentes da I Guerra Mundial, as vanguardas européias destroem as tradicionais formas de representação estética. Novas concepções como: cubismo, expressionismo, dadaísmo, etc surgem na década de vinte.
No Brasil, o rompimento ocorre com a Semana de Arte Moderna, realizada no Teatro Municipal de São Paulo, entre os dias 11 e 18 de fevereiro de 1922. Apesar de ter sido  desencadeado sob influência da vanguarda européia, o movimento modernista procurou extinguir tal submissão aos moldes europeus.
“Por isso mesmo o movimento modernista de 1922, além de ser uma manifestação intelectual e artística, foi um movimento político de contestação à ordem vigente, na medida em que rompeu com a repressão ideológica dominante” (17).
Monteiro Lobato, como verdadeiro representante da estética do rompimento com as velhas e importadas concepções artísticas, adverte os simpatizantes do modernismo, para que se afastem dos “ismos estrangeiros”, ou seja, abstendo-se de importar escolas prontas e acabadas, que nos desviariam ainda mais do caminho rumo à nossa independência artística. Para o escritor Lobato, o modernismo tem grande valor como meio de combate, mas não como fim  cristalizando-se em escola.
Na comemoração do seu vigésimo aniversário, a Semana de 22 é analisada por um de seus precursores: “O modernismo no Brasil foi uma ruptura, foi um abandono de princípios e técnicas conseqüentes, foi uma revolta contra o que era a Inteligência Nacional. É muito mais exato imaginar que o estado de guerra da Europa tivesse preparado em nós um espírito de guerra, eminentemente destruidor. E as modas que revestiram esse espírito foram, de início, diretamente importadas da Europa”; “quanto a dizer que éramos, os de São Paulo, uns antinacionalistas, antitradicionalistas europeizados, creio ser falta de sutileza crítica. É esquecer todo o movimento regionalista aberto justamente em São Paulo e imediatamente antes, pela Revista Brasil; é esquecer todo o movimento editorial de Monteiro Lobato” (18).
A Revista Brasil funcionou como editora durante aproximadamente um ano. Em 1920 surgiu a Monteiro Lobato e Cia., que prosperava em ritmo acelerado, porém os vultosos empréstimos tomados para montá-la, deixam-na em situação instável. Os sócios optam pela abertura de capital, que viabilizaria a tão sonhada expansão da Companhia.
A Companhia Gráfico-Editora Monteiro Lobato surge, então, em maio de 1924, através do
remodelamento da companhia anterior e tendo, entre seus acionistas a elite paulistana. Seu parque gráfico, o mais moderno do país, confirmava o sucesso empresarial do ousado Lobato. Novos maquinários são encomendados para atender a demanda.
Infelizmente, em 1925, é decretada a falência da nova Companhia: a Revolução Paulista de 1924 e a grave seca de 1925 causam a derrocada da Companhia.
A Revolução Paulista liderada pelo General Isidoro Lopes é duramente reprimida pelo Presidente Artur Bernardes (1922-1926). O bombardeio das tropas legalistas sobre os revoltosos é contínuo e desordenado. Na crítica de Lobato ao Presidente, percebe-se o sofrimento do  paulistano, que cai aos milheiros: “Havia lá dentro 3000 rebeldes disseminados no seio de uma massa de 800.000 civis.
O mais rudimentar cálculo faria ver que, por força do bombardeio às tontas, seria mister massacrar 270 civis para dar cabo de um revoltoso”(19).
O governo de Artur Bernardes consegue sufocar a revolta, obrigando os rebeldes a abandonar a cidade. Os sobreviventes juntam-se à Coluna Prestes, ponto culminante da luta armada dos jovens oficiais brasileiros. O presidente Bernardes, porém, não sairia vitorioso de seu mandato, quase todo ele governado sob estado de sítio, com rígida censura à imprensa e severa  restrição aos direitos individuais.
A seca de 1925 obrigou a Light a racionar a energia elétrica, impossibilitando à editora o total aproveitamento de seu novo maquinário, o que lhe teria proporcionado aumento suficiente de produtividade para pagar a sua aquisição.
O golpe de misericórdia é desfechado pela política econômica do presidente Bernardes: a moeda é desvalorizada para estabilizar a inflação. A dívida em moeda estrangeira da editora tornara-se impossível de ser resgatada. É decretada a falência.
Lobato não desiste, mesmo com a perda de quase  todo o seu capital e, no mesmo ano, monta uma nova editora no Rio de Janeiro, a Companhia Editora Nacional. Redige também, uma carta enviada ao Presidente Bernardes, contendo as assinaturas de personalidades paulistas, onde defende a idéia do voto não-obrigatório e analisa os acontecimentos ocorridos entre 1922 e 1924, mostrando as razões da indiferença política dos brasileiros.
No Rio de Janeiro, dedica-se também às traduções (cerca de 82 obras) e colabora nos jornais” A Manhã “ e “O Jornal “, onde seus artigos analisam política, economia e questões sociais, sendo, posteriormente reunidos no livro Mr. Slang e o Brasil. A estabilização da moeda, imprensa, imigração, justiça, moralidade administrativa, revoluções, eleições, sistema tributário, voto secreto, burocracia, estradas de ferro, trabalho, parasitismo, exército, marinha, transportes, orçamentos, livros e editores, enfim, nada escapa à sua visão crítica.
Com a eleição de Washington Luís (1926-1930) para presidente, seu amigo Alarico Silveira é designado para a chefia da Casa Civil. Lobato já havia tido contato com Washington Luís, quando este,  ao visitar a rede de ensino em 1911, impressionou-se com um livro totalmente gasto pelo uso e muito disputado entre as crianças. Da obra em questão, Narizinho Arrebitado, encomendou 30.000 exemplares  para as escolas públicas. Assim, logo no início de seu mandato,o presidente convida o escritor  a assumir o cargo de adido comercial brasileiro em Nova Iorque.
Ë lançado o livro Na antevéspera, coletânea de artigos publicados em jornais e O Presidente Negro,  seu único romance.
Monteiro Lobato parte para Nova Iorque em 25 de maio de 1927, com a esposa e seus quatro filhos – Marta, Edgard, Guilherme e Ruth – a bordo do navio “American Legion”.  É aconselhado a tomar cuidado com seus artigos, que estavam desagradando os militares, segundo lhe comunica  Alarico Silveira, antes do seu embarque.
Como adido comercial, Lobato deveria aumentar a aceitação e a importação dos produtos brasileiros nos mercados da América do Norte e Central.
Deveria auxiliar na identificação de produtos que seriam bem aceitos, ou detectar quais características eram exigidas em determinados produtos, incrementando, assim, o comércio brasileiro
Lobato assume o cargo extremamente motivado: seu primeiro relatório procurava analisar os fatores determinantes para o desenvolvimento dos EUA. Insiste na necessidade de adotarem uma estratégia mercadológica agressiva, divulgando o Brasil e seus produtos. Sugere também que se considerem os altos impostos de exportação dos nossos produtos, prejudiciais à nossa competitividade. Pondera ser impossível corresponder à rapidez e à pressão exigidas pelos americanos durante as consultas ou negociações, sem uma rede de informações perfeitas: “A representação comercial de um país só se justifica se traz esta rapidez e segurança. Fora daí escapa de seus fins e degenera em parasitismo” (20). Mas, o que fazer, se  as consultas que retransmitia ao governo brasileiro, ou ficavam sem resposta, ou demoravam meses para serem enviadas?
Lobato, portanto, estava convencido da importância crucial da informação para, juntamente com a propaganda, retirar o Brasil da posição secundária que ocupava.
Pragmático, sugere também a reunião, num mesmo edifício, de todos os serviços que o Brasil oferecia na cidade, agilizando-os.
Contudo, todas essas sugestões, não recebem sequer respostas ou comentários do governo brasileiro. Frustra-se  ao compreender o desinteresse total da máquina governamental em desenvolver nosso país.
O balanço de 1928 sobre o comércio Brasil-Estados Unidos resumia-se a dois únicos produtos: café e cacau.
Insiste em que, havendo equivalência de preço, o mau desempenho dos outros produtos poderia ser atribuído à sua apresentação ou à não-classificação em tipos padronizados.
Conclui sugerindo o incentivo ao turismo e enfatizando que o Brasil poderia responder à quase  totalidade da demanda americana de matérias-primas se investisse no aperfeiçoamento dos produtos, no aparelho comercial, no sistema de produção e na rede de transporte.
Tentando compreender, de uma forma simplista, as razões do acelerado desenvolvimento americano, conclui serem fundamentais o ferro, o combustível e o trigo.
Em seus negócios particulares, Monteiro Lobato, entusiasmado com a economia americana, tentou investir na bolsa de valores, vendendo, então, a sua parte na editora brasileira; entretanto, é surpreendido pela queda  da Bolsa de Nova Iorque em 1929. Mais uma vez, perdia todo o seu capital .
          A quebra da bolsa de Nova Iorque foi causada por um descompasso entre a produção e o consumo, ou seja, entre a oferta e  a procura. Os Estados Unidos já eram a maior potência capitalista, com uma produção industrial equivalente a 45% da produção mundial.  Os mercados asiáticos e latino-americanos, dominados até a Primeira Grande Guerra pelos europeus, haviam cedido ao poderio americano. Nessa conjuntura, após a década de vinte, houve um investimento maciço na produção, visando obter aumento de lucros.
A superprodução sem consumo compatível gerou desemprego, falências generalizadas e queda dos preços de  até 80%. O pânico dissemina-se  pelo mundo.
No Brasil, cuja economia era baseada na exportação cafeeira, os efeitos foram devastadores. Os banqueiros internacionais passaram a exigir o pagamento dos empréstimos concedidos. O preço da saca de café desaba, mas as vendas continuam estagnadas. Os cafeicultores tentam obter sem êxito empréstimos e prorrogações das dividas com o presidente Washington Luís.
O enfraquecimento da oligarquia cafeeira propicia a Revolução de 1930. A Aliança Liberal, do candidato Getúlio Vargas, é derrotada em eleições fraudulentas pelo candidato situacionista Júlio Prestes.
O assassinato de João Pessoa, candidato a vice presidente da Aliança Liberal, precipitou os
movimentos contestatórios, que  já se formavam contra a eleição de Júlio Prestes. As agitações populares e as articulações dos tenentes inquietavam as oligarquias. Temeroso de uma revolução popular, Antônio Carlos, governador mineiro, declara: “Façamos a revolução antes que o povo a faça”. (21)
Depois de seguidas movimentações de tropas de várias regiões brasileiras, em 24 de outubro de 1930, uma junta militar depõe o presidente Washington Luís, entregando o poder ao chefe da Aliança Liberal, Getúlio Dornelles Vargas.
O rádio popularizava o samba, que desceu, definitivamente do morro para a cidade. O cinema falado divulgava o “american way of life’’ e as expressões estrangeiras. As canções
norte-americanas e francesas eram executadas com freqüência nas rádios brasileiras. No entanto, todo esse complexo fenômeno cultural restringia-se às cidades.O interior do país mantinha-se fiel à cultura regional e folclórica.
Na literatura, Carlos Drumont de Andrade publica seu primeiro livro, Alguma Poesia, que se integrava à visão modernista, mas continha traços de ironia inovadores. A ficção regionalista passa a predominar, revelando Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Jorge Amado e Érico Veríssimo. O caráter de realismo crítico, fixado na realidade social brasileira, representou a direção tomada pelos melhores regionalistas. A crítica em tom burlesco marcou Serafim Ponte Grande (1933) de Oswald de Andrade.
Já a publicação de Casa Grande e Senzala de Gilberto Freire marcou o início da reflexão crítica sobre a formação cultural brasileira e suas características econômico-sociais. Em 1935, Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, trouxe novos elementos para a discussão crítica da realidade brasileira.
Monteiro Lobato é demitido do cargo de adido comercial por Getúlio Vargas. Retorna ao Brasil e reinstala-se em São Paulo.
Irá dedicar-se a dois sonhos: a literatura infantil iniciada em 1920 terá a exclusividade do Lobato escritor. Como ele mesmo revela, estava cansado de escrever para adultos, provavelmente, já muito corrompidos para serem “saneados” pelas suas obras.
O segundo sonho ocupará o empresário Lobato, na tentativa de implantação no Brasil de um processo revolucionário de extrair o minério de ferro a baixa temperatura (processo Smith).
O empresário e o escritor, no entanto, eram impulsionados pelo mesmo ideal: transformar o Brasil em uma nação rica, eficiente e próspera, cuja população fosse capaz “de exercer uma discriminação crítica em face das verdades a ela apresentadas”(22)
Os livros infanto-juvenis do autor, tal qual sua produção para adultos, enfocavam os problemas brasileiros, sendo que, na primeira, isso ocorre através do resgate do imaginário rural, com suas lendas e folclore, descortinando o universo popular brasileiro. Também escreveria obras infantis mais didáticas, ensinando de forma lúdica gramática, matemática, história mundial, etc.
 Lutando pelo seu sonho de empresário, inicialmente através da máquina governamental e depois, através da iniciativa privada, tenta montar uma companhia siderúrgica baseada no processo Smith. O poderoso capitalista norte-americano Percival Farguhar, interessado em impedir a produção siderúrgica autônoma no Brasil e em explorar o minério de ferro de Minas Gerais, consegue obstaculizar todas as tentativas da nova companhia .Após seis anos de lutas quixotescas, desiste do projeto e inicia sua epopéia do petróleo.
Para Lobato, o solo propicia a subsistência e apenas o subsolo permite o enriquecimento. E’claro que também era necessário, ao contrário do ocorrido com o ouro brasileiro, que o  enriquecimento gerado pelo petróleo fosse usufruído pelo país.
Para iniciar o projeto, Lobato promove conferências sobre o petróleo em vários estados brasileiros  e consegue reunir o capital necessário para os estudos geológicos iniciais, mas a produção de petróleo exige altos investimentos, tecnologia de vanguarda e um longo período de testes e sondagens. Além desses inconvenientes, enfrenta a oposição  de trustes estrangeiros e a descrença das elites brasileiras em relação à existência de petróleo em nosso subsolo.O próprio ministro, Juarez Távora, afirmava que petróleo no Brasil era “coisa de comunistas”.
Lobato denuncia as manobras da Standard Oil, multinacional do petróleo, visando difundir a idéia da inexistência de petróleo em nosso subsolo. Envia várias cartas às autoridades do governo, inclusive ao presidente Getúlio Vargas e aos militares  em busca de apoio. Publica o livro O Escândalo do Petróleo em agosto de 1936, que alcança 20.000 exemplares vendidos até o final do ano e que reunia todas as denúncias sobre  a exploração de petróleo no Brasil.
A campanha pelo petróleo recebe apoio da Aliança Nacional Libertadora (ANL), grupo que tinha apoio de Luiz Carlos Prestes, de diversos líderes sindicais e de líderes tenentistas. A ANL era uma frente de oposição ao fascismo e ao imperialismo, composta por comunistas, socialistas e liberais antifascistas com propostas amplas de caráter popular e revolucionário.
Getúlio Vargas, alegando o perigo da “ameaça comunista”, decreta, em 10 de novembro de 1937, o estado de guerra, suspendendo os direitos e garantias individuais e dando início ao Estado Novo. O governo ditatorial passou a exercer censura prévia dos meios de comunicação e a combater violentamente seus adversários. Jamais conseguiriam, contudo, calar Monteiro Lobato.
É criado o Departamento de Imprensa e Propaganda, que exerceria a censura e produziria a Hora do Brasil, programa radiofônico transmitido em cadeia nacional.
Getúlio Vargas convida Lobato a assumir o Departamento de Imprensa e Propaganda, mas o escritor recusa o cargo. O ditador não  havia percebido ainda que Monteiro Lobato  não aceitaria “cabrestos” e, por esse mesmo motivo, jamais havia se candidatado a um cargo (exceto na mocidade, em Areias) ou se filiado a partido.
O Conselho Nacional de Petróleo é criado em 1938. As pressões dos nacionalistas estavam
causando a lenta incorporação de suas idéias pelo Estado.
Em 27 de janeiro de 1941, é decretada a prisão de Lobato por ofensas ao Conselho Nacional de Petróleo. O escritor permanece durante quatro dias na cadeia, mas o processo continuava tramitando, e, menos de dois meses após a sua primeira reclusão, Monteiro Lobato é preso novamente. A prisão preventiva é decretada porque Lobato pretendia viajar para a Argentina a negócios.
O julgamento em primeira instância o absolve; porém, em 20 de maio de 1941, Lobato é condenado pelo Tribunal Pleno a seis meses de prisão. A condenação ocorre em virtude da impertinência do escritor, que envia uma carta irônica ao General Horta Barbosa, agradecendo o período na cadeia juntamente com uma caixa de bombons. Remete também duas cartas ao presidente: a primeira deseja a Vargas “menos retratos na parede e mais coragem nos corações dos que lhe escrevem” (23) e a segunda parabeniza-o pelo seu aniversário e o presenteia com a idéia da criação de uma Companhia Nacional de Petróleo, nos moldes da recém-criada Companhia Siderúrgica Nacional.
Monteiro Lobato não se emenda e escreve a Fernando Costa, no dia de sua posse como
interventor em São Paulo, agradecendo a estada na prisão, que lhe permitiu o ensejo de conhecer as monstruosidades da Polícia de São Paulo e alerta: “não me consta que haja alguma lei autorizando a aplicação de torturas no Brasil. A solução tem que entrar neste dilema: ou a polícia suspende as torturas ou o Estado Novo as legaliza, restaurando uma daquelas velhas leis da Inquisição na Espanha”(24).
O Brasil, finalmente, começava a esgotar Lobato, cansado de denunciar as mazelas brasileiras, ferido pela perda de seus dois filhos (Edgard e Guilherme) ceifados pela tuberculose, humilhado por necessitar da ajuda de amigos para estabelecer residência fixa (fora dos hotéis).
A II Guerra Mundial (1939-1945), onde se enfrentavam as potências do Eixo (Alemanha, Itália e Japão), e as potências Aliadas (lideradas pela Inglaterra, França, Estados Unidos e União Soviética) passou a exigir do Brasil um posicionamento. Getúlio Vargas, que procurava manter a neutralidade para obter maiores vantagens econômicas, foi obrigado a optar pelos aliados (apesar de seu governo ser ideologicamente mais próximo do Eixo, os Estados Unidos  ofereciam maior retorno financeiro).
A Alemanha ataca o Brasil em agosto de 1942 e o país declara guerra às potências do Eixo.
À medida que as potências aliadas foram derrotando militarmente as potências do Eixo, um clima favorável às idéias democráticas foi se espalhando pelo mundo e, pouco a pouco, o Estado Novo de Vargas se enfraquece.
Em fevereiro de 1945, sob pressões externas e  internas, principalmente dos EUA, Vargas fixa a data para as eleições presidenciais, para governadores de estado, para o Congresso Nacional e Assembléias Legislativas Estaduais.
Monteiro Lobato reanima-se ligeiramente ao se associar, em 1944, à editora Brasiliense, que iria publicar suas Obras Completas em trinta volumes (geral e infantil).
Lobato resolve viajar, a pedido da família, para se afastar dos problemas brasileiros que tanto o envolviam e desgastavam. A Argentina acolhe carinhosamente o escritor, em junho de 1946; contudo, ele  não suporta ficar mais de um ano fora do Brasil.
Durante esses últimos anos de vida, não escreveu muito, porém continuava um crítico mordaz e um grande analista. Sobre a situação mundial do pós-guerra pondera: “Vejo três vitórias na guerra em curso, a Inglaterra obterá a Vitória Moral, porque nunca um povo se mostrou tão nobre e forte. Os Estados Unidos obterão a Vitória Comercial, porque nunca um país terá ficado mais senhor de todos os mercados do mundo. A Rússia obterá a Vitória
Política, pois daqui por diante não se dará mais um só passo político sem ter em conta a Rússia”(25). Monteiro Lobato sofre um espasmo vascular cerebral em 21 de abril de 1948, ficando em estado comatoso por algumas horas. Recobra a consciência, porém, o acidente vascular deixa como seqüela uma agrafia bastante nítida. O escritor é atingido, justamente, no que lhe é mais caro: sua capacidade de ler e escrever. O doente recupera-se lentamente, contudo, segundo o próprio Lobato: “o que eu tive foi uma demonstração convincente de que estou próximo do fim – foi um aviso – um preparativo. E de agora por diante o que tenho a fazer é arrumar a quitanda para a grande viagem, coisa para mim que perdeu a importância depois que aceitei a sobrevivência (...)
Estou com uma curiosidade imensa de mergulhar no Além. Isto aqui, o corporal, já está mais do que sabido e já não me interessa. A morte me parece a maior das maravilhas: isto mesmo que tenho aqui, mas sem o corpo ! (...) Tenho planos logo que lá chegar, de contratar o Chico Xavier para psicógrafo particular (...)”(26).
O ilustre brasileiro viaja a 4 de julho de 1948. Como descreve Ricardo Maranhão: “(...) o ruído do seu cortejo fúnebre era facilmente abafado pelo burburinho de São Paulo, cidade cujos horizontes já apresentavam o desenho das chaminés de fábrica como perfil mais marcante. Muitos quilômetros além, o choro saudoso dos seus amigos dos arredores de Taubaté ainda podia confundir-se com o gemido dos carros de boi; mas os jecas-tatus do Vale do Paraíba, apesar de continuar, na sua maioria pobres, já podiam ver o produto de seu trabalho escoado nos vagões de velozes e barulhentos trens de carga, ou no dorso de caminhões”(27).

A HOMEOPATIA NO BRASIL, dividida em períodos segundo Madel Luz

Período de Implantação (1840-1859)

 Nesse período, já existiam no país as Escolas de Medicina ( Rio de Janeiro e Bahia) e a Academia Imperial de Medicina.
A medicina alopática procurava obter o monopólio da arte e do saber de cura e já criticava a homeopatia antes mesmo de esta ser introduzida no país.
Em 1840, o Dr. Benoît Mure, médico francês, chega ao Rio de Janeiro  e é  considerado o  introdutor da homeopatia no país.
A medicina alopática procura expandir seus poderes através de campanhas públicas, publicações em periódicos e  jornais, especialmente  através de  teses acadêmicas que irão referenciar a sua superioridade.
Esse período será caracterizado por grandes debates e polêmicas entre a medicina alopática, tachada de arcaica, e a medicina homeopática,  acusada de  não-científica. As batalhas serão travadas na imprensa, nas escolas médicas existentes, na Academia de Medicina, nos poderes públicos e na sociedade civil.
O Dr. Mure sofre ataques pessoais, sendo acusado de inúmeros crimes, até  mesmo de assassinato.
A alopatia prefere manter as discussões afastadas do meio acadêmico e  acusar os homeopatas de vários delitos: morais, políticos, sexuais, etc. Recusa-se, também, a participar dos desafios terapêuticos propostos pelos homeopatas.
O Instituto Homeopático do Brasil é fundado em dezembro de 1943 pelos doutores Benoît Mure, João Vicente Martins, Domingos Duque Estrada e Francisco Alves Moura. No ano seguinte, o Governo Imperial autoriza a criação da Escola Homeopática, a qual aceitará formar uma clientela leiga, sem exame prévio e num tempo menor do que o exigido pela Escola Alopática. O currículo será substancialmente diferente nas duas Instituições.
A alopatia ressente-se de perder a exclusividade na concessão de diplomas. A homeopatia procura fundar hospitais, dispensários e clínicas para comprovar a sua eficácia terapêutica e utiliza-se da imprensa para divulgá-la. Os fazendeiros, padres e boticários difundem-na no interior do país, adotando-a pelos seus baixos custos.
O ano de 1847 marca  início das dissidências entre os homeopatas. Nesse mesmo ano, é formada a Academia Médica Homeopática por um grupo divergente do Instituto Homeopático.
O  Dr. Mure deixa o país em 1848, cansado das falsas acusações; o Instituo Homeopático, assim como a Escola Homeopática ficam sob responsabilidade do Dr. João Vicente Martins, considerado  o maior divulgador da doutrina no país.

Período de Expansão  (1860-1882)

Não podendo atuar na esfera institucional, os homeopatas adotam novas estratégias de divulgação, entre elas, a publicação nos jornais de acontecimentos favoráveis como: criação de escolas, cura de personalidades, cobertura de eventos e conferências e  relatando o desenvolvimento da homeopatia no Brasil e no exterior.
Com o respaldo da população, a doutrina de Hahnemann conquista alguma oficialização, atuando em hospitais particulares, militares ou de ordens religiosas. Graças também à aceitação popular, intensifica-se a interiorização geográfica da homeopatia.
Os jornais são utilizados para sugerir medicamentos à população durante as epidemias. Consultórios gratuitos multiplicam a clientela urbana.
A nova geração de homeopatas não tem, face à medicina alopática, a mesma postura dos precursores: a homeopatia e a alopatia, para os novos adeptos, diferem apenas na abordagem e na terapêutica, mas a medicina, o saber médico, são idênticos.
Na epidemia de febre amarela de 1873, finalmente as duas doutrinas são comparadas em relação à eficácia terapêutica: a mortalidade entre os pacientes tratados pela homeopatia fica em 18,99% contra 31,62% dos tratados pela medicina ortodoxa.
O Instituto Hahnemanniano do Brasil é fundado em 1878 segundo decreto do governo imperial (inicialmente sob o nome de Instituto Fluminense) e, no mesmo ano, cria o Jornal Annaes de Medicina Homeopática visando acentuar o caráter científico da doutrina.
O espiritismo começa a sua participação na divulgação da homeopatia, o que terá grande relevância, principalmente nos períodos de declínio.
Em 1882, um parecer negativo dado pela Congregação da Faculdade de Medicina do Rio de
Janeiro acaba com o sonho de serem obtidas  duas cadeiras na referida instituição para o ensino homeopático.

Período de Resistência (1882-1900)

A derrota institucional causada pelo parecer, solicitado pelo Imperador, e as razões citadas no referido documento têm grande repercussão negativa. O Dr. Joaquim Murtinho contesta o parecer, através do Jornal do Comércio, e a polêmica se instaura.
Nesse período, o sanitarista Dr. Oswaldo Cruz, unido às instituições médicas difama a homeopatia, não aceitando sua colaboração, nem mesmo à epoca das grandes epidemias.
  Abalado pelas críticas de Oswaldo Cruz, o Instituto Hahnemanniano entra em declínio. Nos consultórios e dispensários, entretanto, as estatísticas são favoráveis à homeopatia; a  vanguarda dos homeopatas freqüenta congressos europeus e mantém uma produção científica considerável, apesar da revolução pasteuriana e do higienismo.

Período Áureo (1900-1930)

O positivismo, que exercia grande influência na Primeira República, especialmente nos meios militares, mantém em relação à homeopatia  antagonismo teórico evidente. Entretanto, pressionados pela  importância dessa doutrina, vários homeopatas tentam provar que a homeopatia também é uma ciência positiva. E, contraditoriamente aos princípios da sua própria ideologia, são os militares positivistas que adotam a doutrina de Hahnemann.
Na Revolta da Vacina (1904), por exemplo, serão encontrados, lado a lado, positivistas, militares e homeopatas contra os sanitaristas do Estado.
           Nesse período, a homeopatia obtém a tão sonhada oficialização do seu saber médico: são criadas duas faculdades de Medicina Homeopática (Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul), um hospital homeopático e Ligas de Homeopatia.
A corporação médica ortodoxa continua sua luta para obstaculizar o avanço da homeopatia, não só por suas diferenças doutrinárias, como pela competição que ocorre pela ampliação da clientela, manutenção  do poder junto ao Estado e pelo monopólio do mercado de trabalho da cura e da produção das verdades científicas.
No ano de 1926 ocorre o 1º Congresso Brasileiro de Homeopatia; as idéias positivistas
mantêm-se presentes no meio homeopático.
A interiorização prossegue através de médiuns, fazendeiros, padres e curandeiros que compravam os medicamentos de farmácias caseiras.

O Declínio Acadêmico (1930-1970)

Esse período foi marcado pelos grandes progressos tecnológicos da medicina e pelo silêncio da medicina ortodoxa  sobre a medicina homeopática. Ainda assim, ocorre o reconhecimento da homeopatia pelos poderes legislativo e executivo.
O Instituto Hahnemanniano fica estagnado em baixíssimos níveis de produção acadêmica e permite a difusão da idéia de que a homeopatia é uma doutrina ultrapassada.
Os grandes laboratórios farmacêuticos se instalam no país. A medicina tecnológica difunde os antibióticos, as especialidades médicas, o modelo de atenção médico-hospitalar, determinando a decadência, não só da homeopatia, mas da própria clínica geral e medicina preventiva.
A homeopatia tenta se adaptar à nova linguagem do saber médico, às suas especialidades e descobertas científicas, mas o retorno, no plano acadêmico, não é o almejado. Há a perda do controle sobre a Faculdade e o Hospital Homeopático do Rio de Janeiro.
Apesar dos reveses, ocorrem inúmeros congressos e a clientela se mantém estável. Já o número de “conversões” de  médicos alopatas à homeopatia torna-se insignificante.
A homeopatia alcança também a condição de órgão de utilidade pública em vários estados, firmando-se junto ao poder governamental que sucede o Estado Novo de Getúlio Vargas.
Nos centros espíritas e terreiros de umbanda a homeopatia é a terapia mais difundida, junto com a fitoterapia. Muitas vezes é prescrita por médiuns ao invés de médicos. Nesse período, portanto, reforça-se a associação da homeopatia com misticismo, o que irá afastar parte da sua clientela potencial.
Os militares homeopatas, nesse período de declínio, contribuíram para a sua institucionalização.

 MONTEIRO LOBATO  E  A HOMEOPATIA

Monteiro Lobato descobre a eficácia da homeopatia através da resolução da rinite de seu filho Edgard em 1917. A doença, que segundo um ilustre médico alopata de São Paulo, só teria cura na idade adulta, desaparece com alguns “carocinhos”.
Pragmático, assim que percebe o resultado de sua própria indicação terapêutica, obtida através de um encontro casual com um livro de Bruckner, O  médico homeopata , encomenda um exemplar para uso próprio e também uma caixa de medicamentos completa da farmácia  Almeida Cardoso.
Tratando alguns amigos na Fazenda Buquira, fica famoso por suas curas, com fama de mágico. Segundo Lobato, até gente do município vizinho veio se “consultar “, atrás dos carocinhos mágicos .
Segundo Hilda Villela, pesquisadora da Biblioteca Infantil Monteiro Lobato, o escritor se consultava com o Dr. Murtinho Nobre em São Paulo e manteve grande simpatia pela homeopatia até o final de sua vida. Segundo a professora Hilda, Monteiro Lobato estava sempre tomando algum medicamento homeopático. Em relação à tuberculose, que matou dois filhos do escritor , a pesquisadora não sabe se foi utilizada a medicação homeopática.
As cartas transcritas a seguir, extraídas de sua obra, confirmam o uso da homeopatia e sua confiança no Dr. Murtinho Nobre, indicando-o para seu grande amigo Godofredo Rangel.
Em sua obra há algumas citações de nomes de medicamentos,  porém o texto não permite diferenciar se o uso era homeopático ou fitoterápico:---“Só em minha mulher não deu a infernal gripe, mas deu no pobre Adalgiso. Acabo de vir do cemitério onde o enterramos. Morreu ontem(...) dias depois de sair no Estado (de São Paulo) o seu último artigo, um em que fazia a  mais extravasante apologia do Gelsemium para gripe.” (28)-___  “ Como está o coração ? Conheces a Digitalis ? o Estrofanto ?” (29)

As Cartas
Carta 1 30
Fazenda, 3/3/1917

Rangel:

A homeopatia!... Eu pensava como você; ou, pior ainda, não me dava ao trabalho de pensar coisa nenhuma a respeito. Não acreditava nem descria – não pensava no assunto e pronto. Mas um dia sobreveio o “estalo” e fiquei tonto. O meu Edgarzinho apareceu com uma doença no nariz. Isso na fazenda. Ele tinha dois anos. Corro a Taubaté, consulto os médicos locais. “O melhor é ver um especialista em São Paulo”. Vamos para São Paulo. “Quem é o baita para narizes?” J. J. da Nova.
Vou ao Nova. Examina, cheira, fuça e vem com um grego: “Rinite atrofica. Só  pode sarar lá pelos 18, 20 anos – mas vá fazendo umas insuflações com isso” e deu-me uma droga e um insuflador. Voltamos para Taubaté, muito desapontados. Dezoito anos! Mas minha casa lá era defronte à duma prima. Vou ve-la. Tenho de esperar  na sala de visitas um quarto de hora. Em cima da mesa redonda está um livro de capa verde. Abro-o. “Bruckner, O Medico Homeopata”.
Instintivamente procuro a seção Nariz. Leio conjuntos de sintomas. Um deles coincide com os sintomas da rinite do Edgard. Prescrição: “Mercurius”. Entra a prima. Conto o caso do menino e aquele encontro ali. “Vale alguma coisa isto de homeopatia?” pergunto, céptico. E ela:
“Experimente. Não custa”. Quando saí passei pela farmacia. “Tem Mercurius?” Tinha. Comprei cinco tostões. “Almeida Cardoso – Rio”. Levo para casa. Falo à Purezinha. Sem fé nenhuma, dou automaticamente os carocinhos ao Edgard, mais do que mandavam as instruções. Cinco em vez de três. Depois, mais cinco. De noite, mais cinco. No dia seguinte, o milagre: todos os sintomas da rinite haviam desaparecido!... Mas sobreviera uma novidade: purgação nos ouvidos. Cheio de confiança, corro à casa da prima, atrás do livro de capa verde. Procuro “Ouvidos” e leio esta maravilha: “Às vezes sobrevém purgação no ouvido por abuso de Mercurius e, nesses casos, o remédio é  Sulfur”. Vou voando à farmacia. Compro Sulfur. Mais 500 réis. Dou Sulfur ao Edgard e pronto – sarou do ouvido! Sarou da rinite, sarou de tudo! Preço da cura: 100 réis. Pela alopatia, em troca da não cura: várias consultas médicas, viagem a São Paulo, drogas insuflantes e aparelho insuflador – e a desesperança.
Que  fazer depois disso,  Rangel, senão mandar vir um livro de capa verde e uma botica com todas as homeopatias do Almeida Cardoso? Cem mil réis custou-me e desde então curo tudo. Curo tudo em casa e no pessoal da fazenda. Fiquei com fama de magico. Vem gente dos sitios vizinhos. “Ouvi dizer que o senhor é um bom doutor que cura”- e curo mesmo.
Chega a vir gente até do municipio vizinho atrás dos “carocinhos magicos”...

Lobato

Carta 2 31
São Paulo, 15/1913

 Teca
 O baraticida que eu usava chamava-se Kammeyager. Não o encontrei por isso vai um outro que me garantem tão bom como ele. Encontra-se na casa L. de Sousa – Largo do Rosário.
  A camomila dá-se em doses de 4 a 6 glóbulos de 2 em 2 ou 3 em 3 horas aos primeiros sintomas de qualquer doença. É um remédio geral e inicial enquanto não se define a moléstia. Para baratas é muito bom o bórax ou ácido bórico misturado com açúcar e do qual elas são muito gulosas.
Por aqui nada de novo a não ser uma velha garoa que se eterniza.
Adeus, um beijo na sobrinha e recomendações da patroa do Juca

Carta 3 32
1915 (provavelmente)

Teca
 Purezinha mandou-te uns bolinhos de milho e eu juntei a eles uma ninhada de ovos de Orpington preta para chocares, havendo jeito, ou comê-los. Também pus no caixão um lombo defumado, mas não sei em que estado chegará aí;   se estragou foi pena, pois estava ótimo. As rapaduras é invenção de Marta para a Gulnara. O Guilherme também trouxe para a Gonaia uma batelada de “presentes” para eu meter no caixão: coquinhos de jerivá, e mil coisas mais, que eu fingi encaixotar e deitei fora. Valha o boa intenção. O Rangel, muito doente, veio a São Paulo tratar-se e eu indiquei-lhe o Murtinho Nobre. Caso ele precise e te peça uma recomendação explique  você ao Heitor quem é Godofredo Rangel  e peça ao H. a carta, caso o H. se dê com o Murtinho.
Adeus. Estou com a cabeça pesada de estupidez.
                            Juca

Carta 4 33
Buquira, 17/07/1917

 Teca
 Você escreveu-me há dias falando numa segunda remessa de ovas e deixou-nos a aguar. Que venha, se ainda as há, que eu gosto de ovas como o Rodrigo de içás. Ainda não decidi o negócio da fazenda; estamos a debater preço por carta; se chegar a um acôrdo, vendo. E vendo para pagar minhas célebres dívidas e gozar as delícias de andar de cabeça alta. Hoje Janzinha, Eugênia e a criançada foram passar o domingo na vila. Veja você que felicidade a vida da roça!
Tens visto o Eduardo? Parece que é mau o estado dele, pelo que contam as cartas. O calcanhar de um e o ouvido  de outro; Eugênia e Dolores têm sofrido um bocado. Eu tenho sido tão feliz com os meus, que até receio de repente chegar a reboldosa. A gravíssima rinite do Edgard, que só sararia com a idade, aos 20 anos, sarou com 10 caroços de homeopatia. E assim os grandes males que caem por casa abortam em coisinhas sem importância. Tenho acompanhado os trabalhos de Heitor na Câmara. Está ele mais satisfeito agora?
Muitas saudades da Pureza e lembranças ao H. e à G. (diga ao H. que no Camilo encontrei uma Gulnara).
           Juca

CONCLUSÃO

 Monteiro Lobato , como positivista e amigo de sanitaristas importantes, apresentava vários motivos para se manter totalmente descrente da homeopatia. Esse grande pioneiro, contudo, jamais emitia opinião sobre um assunto antes de conhecê-lo e não rejeitava nada antes de experimentar.
Assim, apesar da incerteza , Lobato prefere testar a homeopatia  para, através da experiência , formar uma opinião a  respeito. Eficácia comprovada, seu pragmatismo estava satisfeito.
       A data do seu contato inicial com a homeopatia ficou confusa, pois a carta que se refere à indicação do Dr. Murtinho Nobre (esta sem data exata, traz a indicação dos editores como sendo, provavelmente, de 1915) e a carta sobre o uso da camomila (1913) são anteriores à carta em que se refere à cura do filho Edgar. Esta última, pelo seu texto, parecia se referir ao contato inicial com a doutrina, mas pelo conteúdo das demais, o escritor já tinha um conhecimento prévio ou, pelo menos, atribuía-lhe algum crédito, já que indica o Dr. Murtinho Nobre, homeopata de renome, a seu melhor amigo.
        Após essas cartas, entretanto, não se encontram mais referências em suas cartas.  Mesmo durante a doença dos filhos (tuberculose), não se encontram referências a remédios homeopáticos.
E, em cartas a amigos que enfrentavam a mesma doença, após a morte dos seus filhos, encontram-se presentes nomes de remédios alopáticos (antibióticos). Na última carta do livro A Barca de Gleyre há a referência ao estrofanto e a digitalis, mas o escritor  também se refere a uma consulta com um médico alopata, Dr. Jairo Ramos .
         Apesar disso, a pesquisadora, amiga pessoal e personagem de seus livros infantis, Hilda Villela, interrogada a respeito, afirma que Lobato jamais deixou de usar a homeopatia, porém não sabe se esta foi utilizada na doença  dos seus filhos. Terá sido usada com insucesso e isto terá motivado o silêncio, ou existirão outras referências em cartas não publicadas? Uma pesquisa mais extensa terá que ser realizada para responder a questão e confirmar as palavras da pesquisadora de que Monteiro Lobato  utilizou  a homeopatia até o fim de sua vida.
        As curas  realizadas na fazenda por  Lobato confirmam a interiorização da homeopatia realizada por fazendeiros, como descreve Madel Luz.
       O seu pioneirismo em todas as áreas em que incursionou, assim como sua coragem em defender, não só a homeopatia, mas também o espiritismo (adotado após a morte dos filhos), confirmam a grandeza  e autenticidade desse brasileiro.
    Como já haviam percebido os homeopatas brasileiros há anos, a divulgação de curas de personalidades reconhecidas ajuda a promover a homeopatia. Quanto mais em evidência estivesse a figura pública em questão, maior seria a sua capacidade, à medida que sua história fosse revelada, de converter adeptos.
Ao ler a biografia e a obra de Monteiro Lobato no seu contexto histórico, fica patente a pequenez de se atribuir a ele a capacidade de converter pessoas  à homeopatia ou a outras causas, apenas pela sua fama.
Tanto pelo seu exemplo de vida independente e idôneo, quanto pela ideologia presente na suas obras infantis e para o público em geral, Monteiro Lobato ajudou a moldar brasileiros mais criativos, com a fortaleza necessária para adotar princípios e valores que atendessem apenas à própria consciência.
Através de sua biografia percebe-se o claro propósito  que o impeliu a procurar, muitas vezes, os caminhos mais difíceis, enfrentando riscos e aborrecimentos sem desistir do objetivo maior de apontar o caminho da luz – como ele a compreendia – para a tomada de consciência da sociedade brasileira.
Neto de Visconde, não se acomodou como aristocrata. Advogado, não se contentou com um cargo público. Fazendeiro, tentou compreender a  realidade do mundo rural e modernizá-lo. Escritor, opõe-se ao nacionalismo ufanista que vendia milhares de obras. Editor, não  publicou só os famosos, abriu espaço para o talento brasileiro. Como membro do governo nos EUA, não se contentou em dependurar-se nas “tetas” do governo, pelo contrário, mordia-as sempre buscando acordar a pátria adormecida que montava escritores no exterior com finalidade meramente figurativa. Como empresário, buscou desenvolver negócios que ajudassem no crescimento e na independência da pátria. Revolucionário nas suas idéias, nunca buscou a luta armada. Intelectual, nunca se manteve apenas no plano das idéias. Brasileiro, nunca deixou de amar sua pátria, nem de perceber seus defeitos.
Através de seus livros, como citado anteriormente, transmitiu valores imperecíveis a crianças e adultos. E não esperava em resposta que o adulássemos, mas sim, que não o seguíssemos, como ele próprio diz: “Temos que ser nós mesmos, apurar os nossos Eus (...), sob o risco de não sermos coisa nenhuma” (34).

CITAÇÕES BIBLIOGRÁFICAS

1-PENTEADO, J.  R. W.  Os Filhos de Lobato, p. XIV
2-LOBATO, Monteiro.  A Barca de Gleyre vol II , p.66
3-SILVA, F. A.  História do Brasil, p. 175
4-Ibidem, p. 176
5-Ibidem, p. 176
6-Ibidem, p. 204
7-AZEVEDO, C.  L.  de;  CAMARGOS, M.;  SACHETTA,V.  Furacão na Botocúndia, p.31
8-Ibidem, p. 31
9-LOBATO, M.  A Barca de Gleyre vol I, p. 83
10-LOBATO, M.  A Barca de Gleyre vol II, p. 66
11-PENTEADO, J. R. W.  Os Filhos de Lobato, p. 44
12-LOBATO, M.A.  Barca de Gleyre vol I,  p. 25
13-AZEVEDO, C. L. de;  CAMARGOS, M. ;   SACHETTA, V.  Furacão na Botocúndia, p. 34
14-Ibidem,  p. 34
15-SILVA, F. A.  História do Brasil, p. 207
16-AZEVEDO, C.  L. de;  CAMARGOS, M.;  SACHETTA,V.  Furacão na Botocúndia, p.124
17-SILVA,  F. A.  História do Brasil, p.231
18-AZEVEDO, C.L.de;  CAMARGOS, M.; SACHETTA, V.  Furacão na Botocúndia, p.184
19-Ibidem, p.224
21-SILVA, F. A. História do Brasil, p.240
22-PENTEADO, J. R. W. Os Filhos de Lobato, p.164
23-AZEVEDO, C.L. de;  CAMARGOS, M; , SACHETTA, V. Furacão na Botocúndia, p.305
24-AZEVEDO, C.L.de;  CAMARGOS, M.; SACHETTA, V.  Furacão na Botocúndia, p.306
25-Ibidem, p.338
26-LOBATO, M. A Barca de Gleyre vol II, p.361-363
27-MARANHÃO, R.;   ROCHA, R.;   LAJOLO, M.  Monteiro Lobato: literatura comentada, p.198
28-LOBATO, M.  A Barca de Gleyre vol II, p.184
29-Ibidem, p. 36
30-Ibidem, p. 132
31-LOBATO, M. Cartas Escolhidas vol I,  p.125
32-Ibidem, p. 138
33-Ibidem, p. 167
34-LOBATO, M. A Barca de Gleyre vol I, p.80-83

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

    1-AZEVEDO, C. L. de;  CAMARGOS, M.;  SACCHETTA, V.  Furacão na Botocundia. 1. ed. São Paulo: Senac, 1997.
   2-BARBOSA, A. O Ficcionista Lobato. 1. ed. São Paulo: Brasiliense, 1996.
   3-LOBATO, M.  A Barca de Gleyre. 2. ed. v. I. São Paulo: Brasiliense, 1948.
   4-LOBATO, M.  A Barca de Gleyre. 2.ed. v. II. São Paulo: Brasiliense, 1948.
   5-LOBATO, M.  A Literatura da Minarete. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1972.
   6-LUZ, M. T.  A Arte de Curar x A Ciência das Doenças.  São Paulo: Dynamis, 1996.
   7-MATOS, C. J.;  NUNES, C.  A História do Brasil. São Paulo: Nova Cultural, 1994.
   8-PENTEADO,  J. R. W. Os Filhos de Lobato. 1. ed. Rio de Janeiro: Dunya, 1997.
   9-SILVA, F. de A. História do Brasil. 1. ed. São Paulo: Moderna, 1937.
   10-LOBATO, M.  Cartas Escolhidas vol I . 5. ed. São Paulo: Brasiliense, 1969
   11-LOBATO, M. Cartas Escolhidas vol II . 5. ed. São Paulo: Brasiliense, 1969
   12-MARANHÃO,  R.;  ROCHA,  R.;  LAJOLO,  M. Monteiro Lobato: literatura comentada. 1.  ed. São Paulo: Abril, 1981