Asma brônquica: utilidade da terapêutica homeopática

 José Humberto Torres Díaz*
 Humberto Avesani**
 Maria de Los A Veja Palau***
 Reinaldo López Hernandez****
Médicos homeopáticos - Havana - Cuba



INTRODUÇÃO

        A asma brônquica foi definida como afecção caracterizada por uma resposta da traquéia e dos brônquios a diversos
estímulos, que se traduz por um estreitamento difuso das vias aéreas, com uma contração excessiva do músculo liso e uma
hipersecreção de muco, reversível espontaneamente ou sob efeito de terapêutica.
        Todo doente asmático nasce com a característica de reagir de forma patológica (hiper-reatividade brônquica) diante da
exposição a diferentes substâncias, que em outros indivíduos não provocam alterações. Em seus antecedentes familiares, há
com freqüência, asmáticos ou pessoas que possuem algum tipo de manifestação alérgica.
        As substâncias que podem desencadear uma crise asmática nas pessoas susceptíveis são conhecidas pelo nome de alergenos, geralmente complexas, proteicas ou não, que entram em contacto com o doente pela pele (alergenos de contato),
pelo aparelho digestivo (alergenos de ingestão) ou pelo aparelho respiratório (alergenos inalantes), sendo estes, os de maior
importância na patologia alérgica em geral e na asma brônquica em particular.
        Uma história clínica cuidadosa pode conduzir-nos ao agente causal, que é identificado quase sempre por provas cutâneas de sensibilidade. Às vezes é necessário recorrer a provas que provocam crises de asma (aerosol do alergeno suspeito).     Quando não se identificam as formas descritas acima, pensa-se numa causa infecciosa da asma, isto é, uma infecção respiratória ou extra-respiratória que esteja produzindo as susbstâncias alergênicas que provocam o quadro asmático.
        Em Cuba, a prevalência da asma brônquica é de aproximadamente 10 a 15%, sendo uma das principais causas de
morbidade, especialmente no inverno. Ante a impossibilidade de tratar, ao mesmo tempo e com igual dedicação, todos os
pacientes afetados por essa patologia, nesse período do ano e conhecendo as vantagens da terapêutica homeopática,
motivamo-nos a realizar a presente investigação com o objetivo de determinar a efetividade desse procedimento terapêutico, no caso específico da asma brônquica.

OBJETIVOS

A- GERAL
1. Determinar a eficácia da terapêutica homeopática no tratamento da asma brônquica nas consultas de Homeopatia da
Policlínica Docente Playa, no período de novembro de 1996 a fevereiro de 1997.
B- ESPECÍFICO
1. Identificar as características gerais da população estudada e de sua doença, antes da utilização da terapêutica homeopática.
2. Determinar diferenças na evolução da doença com a utilização ou não da terapêutica homeopática.

MATERIAL E MÉTODO

        Realizou-se um estudo prospectivo,  para provar a eficácia da terapêutica homeopática na asma brônquica, nas consultas de Homeopatia da Policlínica Docente Playa, no período compreendido entre novembro de 1996 a fevereiro de 1997.
        Para a seleção dos pacientes objetos de estudo, consideraram-se as crises de asma desencadeadas por mudanças de
temperatura e umidade e como critério de exclusão, o antecedente do doente ter recebido recentemente ou no momento do
estudo, tratamento com esteróides.
        O estudo foi realizado em duplo-cego segundo a idade, sexo, freqüência e intensidade das crises, constituindo-se, dessa forma:

        A intensidade e a freqüência das crises foram classificadas da seguinte forma:

INTENSIDADE

FREQÜÊNCIA Após revisar as Matérias Médicas  e o Repertório, assim como o critério de expertos, selecionaram-se os
medicamentos, Dulcamara e Tuberculinum.
Ao grupo de casos foram administrados:
          Para avaliar a evolução, realizou-se seguimento quinzenal de todos os pacientes, levando-se em consideração a intensidade e a freqüência das crises, assim como os sinais detectados ao exame físico do aparelho respiratório; as doses de medicamentos broncodilatadores que estavam sendo consumidos foram constatadas pelas histórias clínicas.
        Ao concluir o período de estudo, confrontamos os dados para saber a que grupo correspondia cada um
dos pacientes objetos de estudo e comparamos os dois grupos.
        Os dados foram recompilados das histórias clínicas e transcritos para tabelas; a seguir foram processados por métodos
manuais, tirando-se distribuições porcentuais, como resumo.
        Para a estatística dos dados, utilizou-se a análise de variança, sendo empregada a Prova de Fisher para determinar a existência de diferenças significativas entre os grupos antes de iniciar a terapêutica e finalizando o período de estudo, com 95% de confiança.
        O processamento estatístico realizou-se pelo programa Stat Windows, sendo tomados os procedimentos da bibliografia
consultada.
        Os resultados são apresentados em tabelas que facilitam sua análise e compreensão.

ANÁLISE DOS RESULTADOS

        Ao analisar a distribuição porcentual dos pacientes objetos de estudo, segundo a idade (tabela nº 1), observamos que 50% dos mesmos estavam compreendidos nos grupos etários de 5 a 14 anos e de 15 a 49 anos com 25% para cada grupo, seguindo-se em ordem de freqüência, os pacientes incluídos no grupo de 60  a 64 anos (20,8%). Devemos assinalar que, embora em menor freqüência, também foram estudados lactentes e pacientes maiores de 65 anos.
        De forma casual, 50% da amostra eram representados por crianças e 50% por adultos.
        Em relação ao sexo (tabela nº2), 62.5% dos pacientes objetos de estudo, pertenciam ao sexo feminino e 37.5% restantes ao sexo masculino.
        Antes de iniciar o tratamento, observamos que, em 54.2% dos pacientes, as crises de asma limitavam a atividade física, motivo pelo qual foram classificados como Grau II, segundo a intensidade das mesmas (tabela nº 3), seguindo-se em ordem de freqüência, a porcentagem de pacientes classificados como Grau I (20.8%), pois as crises não limitavam a atividade física.Em 16.7% dos casos as crises eram invalidantes, sendo classificados como Grau III e, em 8,3%, a invalidez era acompanhada por cianose, sendo classificados como Grau IV.
        Uma vez iniciado o tratamento, observamos que essa situação começou a sofrer modificações, que foram muito mais
ostensíveis no grupo de pacientes submetidos a tratamento homeopático, pois 58.3% foram classificados como Grau I; 20.8% como Grau II, quatro casos não apresentaram crise de asma, o que representou 16.7% da amostra, correspondendo em sua totalidade, a pacientes pediátricos; não se observou ao final do tratamento, paciente classificado como Grau IV.
        No grupo de pacientes submetidos a placebo, como assinalamos anteriormente, observaram-se modificações em menor
quantidade, pois aumentou discretamente a porcentagem de pacientes classificados como Grau I (29.2%), diminuindo a
porcentagem de pacientes classificados como Grau III (12.5%) e Grau IV (6.2%), mas nenhum dos casos esteve livre de crise, durante o período estudado.
        Em relação à freqüência das crises (tabela nº 4), antes de iniciar a terapêutica, 39.5% dos pacientes foram classificados como Grau III, seguindo-se, em ordem de freqüência, os pacientes classificados como Grau II (29.2%), embora com uma diferença pouco significativa em relação aos incluídos no Grau IV (25%). Somente 8,3% foram classificados, segundo a freqüência, como Grau I.
        Ao finalizar o estudo, observamos que nenhum paciente dos submetidos ao tratamento homeopático, encontrava-se
classificado no Grau IV e, além disso, 16.7% (quatro pacientes) não haviam apresentado crise de asma durante o período em que se mantiveram sob tratamento. Aumentou também a porcentagem de pacientes classificados como Grau I (33.3%) e
diminuíram os de Grau II e III em 25% respectivamente para cada grupo.
        Nos pacientes submetidos a placebo, observaram-se também algumas modificações com relação à freqüência das crises no final do tratamento, comparando-se com a etapa inicial, relatando-se um discreto aumento dos pacientes classificados como
Grau I (14.6%) e Grau II (37.5%) e uma leve diminuição do Grau IV (20.8%) e do Grau III (27.1%), embora nenhum dos
controles estivesse livre de crise, no período analisado.
        É importante estudar, não somente os aspectos subjetivos, como também comprovar objetivamente a evolução da doença através de seguimentos; por isso consideramos oportuno comparar os sinais detectados ao exame físico e o consumo de medicamentos broncodilatadores nos pacientes objetos de estudo, antes de iniciar o tratamento e ao término do mesmo.
        Observamos que, antes de iniciar a terapêutica, em 87.5% dos casos e em 81.2% dos controles, detectava-se algum sinal positivo ao exame físico, como tórax em inspiração com diminuição das incursões respiratórias, polipnéia, hipersonoridade à percussão ou ausculta de roncos e sibilos nos campos pulmonares. Ao contrário, em 12.5% dos casos e 18.8% dos controles não se constatou dado positivo ao exame físico respiratório, durante o tratamento (tabela nº 5).
        Ao finalizar o tratamento, em 66.7% dos pacientes que se encontravam sob tratamento homeopático não se detectaram sinais positivos ao exame físico do aparelho respiratório, aumentando esta porcentagem consideravelmente se compararmos com a etapa inicial; não ocorreu o mesmo no grupo-controle, uma vez que neste, apesar de existir um discreto aumento da porcentagem de exames físicos negativos (27.1%), não foi tão significativo como no grupo de casos.
        Do mesmo modo, comprovou-se o abandono de consumo de medicamentos broncodilatadores (tabela nº 6), em 66.7% dos pacientes submetidos a tratamento homeopático e diminuição da dose dos mesmos em 33.3% dos casos. Nenhum dos 18 pacientes que recebiam broncodilatador antes de iniciar o tratamento, terminaram o período de estudo com dose igual à do início.
        O mesmo não aconteceu com o grupo-controle, pois somente 5.7% dos pacientes pertencentes a este grupo abandonaram a medicação broncodilatadora; 20% diminuíram as doses, enquanto 74.3% terminaram o período de estudo, com a mesma dose que recebiam antes de começar a tomar placebo.
        Para a análise estatística dos dados, utilizou-se a análise de variança, sendo empregada a Prova de Fisher. Determinou-se para cada comparação, a razão de variança, fazendo-se, além disso, o teste de um extremo (T. de Student), para saber se as diferenças eram significativas entre os 2 grupos, antes de iniciar o tratamento e ao finalizar o mesmo, aceitando-se que as 2 amostras não apresentavam diferenças significativas antes de iniciar o tratamento, porque a F crítica era maior que a F calculada. A mesma análise estatística foi realizada, comparando-se casos e controles ao final do tratamento, demonstrando-se que existia uma diferença altamente significativa entre as amostras, pois a F calculada era maior que o valor da F crítica, com 95% de confiança.


Tabela 1
Distribuição percentual segundo a idade dos pacientes
Casos Controles
Idade
No
%
No
%
< 1 ano
2
8.3
8
8.3
1-4 anos
4
16.7
8
16.7
5-14 anos
6
25.0
12
25.0
15-49 anos
6
25.0
12
25.0
60-64 anos
5
20.8
10
20.8
> 65 anos
1
4.2
2
4.2
Total
24
100%
48
100%

Tabela 2
Distribuição percentual segundo o sexo
Casos Controles
Sexo
No
%
No
%
Masculino
9
37.5
18
37.5
Feminino
15
62.5
30
62.5
Total
24
100
48
100 


Tabela 3
Resposta ao tratamento segundo intensidade da crise
Intensidade Início 
do Tratamento 
Início 
do Tratamento
Final 
do Tratamento
Final do 
Tratamento
Casos
Casos
Controles Controles
Casos
Casos
Controles 
No
%
No
%
No
%
No
%
Grau 0
-
-
-
-
4
16.7
-
-
Grau I
5
20.8
10
20.8
14
58.3
14
29.2
Grau II
13
54.2
26
54.2
5
20.8
25
52.1
Grau III
4
16.7
8
16.7
1
4.2
6
12.5
Grau IV
2
8.3
4
8.3
-
-
3
6.2
Total
24
100%
48
100%
24
100%
48
100%


Tabela 4
Resposta ao tratamento segundo a freqüência da crise
Freqüência
Casos
início t
 
Controles
início t
 
Casos
final t
 
Controles
final t
 
 
Número
%
Número
%
Número
%
Número
%
Grau 0
-
-
-
-
4
16.7
-
-
Grau I
2
8.3
4
8.3
8
33.3
7
14.6
Grau II
7
29.2
14
29.2
6
25.0
18
37.5
Grau III
9
37.5
18
37.5
6
25.0
13
27.1
Grau IV
6
25.0
12
25.0
-
-
10
20.8
Total
24
100
48
100
24
100
48
100


 Tabela 5
Resposta ao tratamento segundo os sinais físicos ao exame clínico
Sinais físicos
Casos
início t
 
Controles
início t
 
Casos
final t
 
Controles
final t
 
 
No.
%
No.
%
No.
%
No.
%
Ausência de sinais
3
12.5
9
18.8
16
66.7
13
27.1
Presença de sinais
21
87.5
39
81.2
8
33.3
35
72.9
Total
24
100%
48
100%
24
100%
48
100%



Tabela 6
Resposta ao tratamento segundo o consumo de broncodilatodores
Início t 
tratamento 
broncodilatador
Casos
 
Controles
 
 
No.
%
No.
%
Recebiam 
tratamento 
broncodilatador
18
75.0
35
72.9
Não recebiam 
tratamento 
broncodilatador
6
25.0
13
27.1
Total
24
100%
48
100%
Final t 
Resposta ao 
tratamento
Casos
 
Controles
 
 
No.
%
No.
%
Doses iguais ao 
início 
do tratamento 
-
-
26
74.3
Diminuição 
das doses de 
broncodilatador
6
 33.3
7
20.0
Abandono do 
broncodilatador
12
66.7
2
5.7
Total
24
100%
35
100%



Tabela  7
Distribuição percentual segundo o tempo de evolução da sintomatologia
Tempo de evolucão
No.
%
< 3 dias 
4-7 dias 
8-14 dias 
> ou igual 15 dias
32 
51 
36 
168
11.2 
17.8
12.5 
58.5
Total
287
100 


 Tabela 8
Tratamento recebido anteriormente e sua eficácia
Tratamento
No.
%
Não receberam
23
8.0
Medicina verde
183
63.8
Tratamento alopático
208
72.5
Outros
134 
46.7 



Tabela 9
Resposta ao tratamento homeopático
Resposta ao tratamento
No.
%
Responderam
265
92.3
< 7 dias
114
43.0
7 - 14 dias
127
47.9
> ou igual 15 dias
24
9.1
Reinfestacões n = 265
7
2.6
Não responderam n = 265
22
7.7


CONCLUSÕES

1 - O grupo maior dos pacientes estudados encontrava-se compreendido nos grupos etários de 5 a 14 anos e de 15 a 49
anos, com igual porcentagem de cada um, observando-se um predomínio dos pacientes do sexo masculino.
2 - A maior porcentagem dos pacientes objetos de estudo foi classificada, antes de iniciar a terapêutica, como grau II, segundo a intensidade, grau III segundo a freqüência, apresentando sinais positivos ao exame físico e encontravam-se recebendo medicamentos broncodilatadores.
3 - Demonstrou-se que no grupo de pacientes que receberam tratamento homeopático, diminuiu a intensidade e a freqüência das crises e 1% dos mesmos não apresentou mais crise no período estudado.
4 - Nos pacientes submetidos a tratamento homeopático, ao finalizar o estudo, detectou-se maior porcentagem com
exames físicos negativos e a diminuição ou abandono completo do tratamento broncodilatador.
5 - Observou-se uma diferença altamente significativa entre 2 amostras, com relação à resposta ao tratamento, a favor da
terapêutica homeopática, com 95% de confiança.

Recomendações
Baseados nos resultados obtidos na presente investigação, consideramos oportuno realizar a seguinte recomendação:
Aconselhar o conhecimento da terapêutica homeopática a nossos facultativos, assim como a aplicação da mesma como uma alternativa a mais para a solução dos problemas de saúde, que se apresentam em nossa prática diária como profissionais de
saúde, especificamente no caso da asma brônquica, pela alta morbidade que apresenta em nosso país

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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5.  RIGOL RICARDO, O.  Medicina General integral.  v.4. (s.l.):  Pueblo y Educación,  1986.
6.  ROCA GAUDERICH, R.  Temas de Medicina Interna.  v.2.  3. ed. (s.l.):  Pueblo y Educación,  1986.
7.  VANNIER, Lèon.  Compendio de Matéria Médica Homeopática.  6. ed.  Francia: (s.n., 195-?).
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